21 de dezembro de 2007

Desejo de Natal




O hálito azul da tarde vai passar uns dias no campo...

A todos os que vão partilhando comigo este espaço, desejo que os próximos dias sejam passados em boa companhia, e que os abraços agora dados, suavizem, com ternura, o novo ano que se aproxima.

...até Janeiro!

With friendly greetings


18 de dezembro de 2007

My Christmas wish must travel far


With Kindest Wishes


Hearty Christmas Greetings


Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.




Vinícius de Moraes

A package I´ve sent with a wish for the season


Christmas Greetings

16 de dezembro de 2007

Borboletas

Noites sem sexo são perfeitas, também: janelas entreabertas,
sombras que passam na rua através das horas, relâmpagos
que não chegam a iluminar as paredes do quarto. Românticos
que se encontram depois de viver vidas paralelas, cansados


– mas enlaçados antes que chegue a hora de partir, sem saberem
se amanhã há outro sono igual, ou uma escolha para fazer.
Os dois sabem que são doidos, estendem os dedos na escuridão
entre as luas. Os dois sabem que mais adiante podem arder
de repente no meio do Verão, consumidos pelos segredos


e pela indiferença. Noites sem sexo são perfeitas, também;
e raras, e condenadas e incompletas. Borboletas no estômago,
batendo asas contra todas as paredes do corpo – não deixando
que ele adormeça, inquieto e insatisfeito, voltado para dentro


e para o passado. Românticos que se encontram quando nenhum
deles esperava outra oportunidade, outro caminho. Nunca estamos
preparados, diz um. Nunca estamos, repete o outro, quando
a primeira borboleta sossega depois de um beijo em dívida.



Francisco José Viegas

Les Paladins

Rameau
Les Arts Florissants

A Merry Christmas


A Joyous Christmastide


11 de dezembro de 2007

Best Christmas Wishes


Philosopher's Tree



(Biei, Hokkaido, Japan)
Michael Kenna

Lone Tree



(Bibaushi, Hokkaido, Japan )
Michael Kenna

solidão de papel

não me fales mais
dessa solidão de papel
eu ainda tenho a sede das oliveiras
a paciente sede
dos rios que nunca chegam
dos rios avistados
que não se podem tocar

eu ainda tenho a dor da terra queimada
a fortíssima dor
das chuvas que não voltam
das raízes que morrem
sem poder gritar

o teu nada
é só mais um perfume!

e eu
eu tenho sangue na voz
tenho no peito o grito do lobo
a imensa tristeza de uma lua
que o céu não quis



gil t. sousa
do blog #poesia

3 de dezembro de 2007

Merry Christmas Greetings


Sloane Square



Richard Bram

epitáfios | VI

morreremos dizendo um poema
como um murro no estômago

renasceremos povoados de hálitos
engavetados e armazenados pelo ódio
nas antologias do esquecimento




Henrique Fialho

I´m in hell



Richard Bram

poemas com ruídos no interior | entre nós

entre nós
no inverno
as pessoas andam de ombros encolhidos
gorjeiam suspiros que contrastam rostos
inflamados de medo

entre nós
no inverno
histriões acocorados nos desvãos das pensões
hipotecam o corpo enquanto cospem a alma

entre nós
no inverno
as sombras fulguram no gelo das luas
imbuindo-se no escarro das criaturas

abandonados numa enxerga de rosáceas pétalas
conquistada com os punhos de um velho inimigo
os fantasmas que
entre nós
no inverno
reclamam brasas para o espírito
suicidam-se
ouvindo Bach
e declamando Goethe




Henrique Fialho

A very merry christmas

Diz que até não é um mau blog




Obrigada Lívia por este seu reconhecimento.


Eis os parâmetros inerentes à condição:
1. Este prêmio deve ser atribuído aos blogs que consideras serem bons, entende-se como bom os blogs que costumas visitar regularmente e onde deixas comentários.
2. Só e somente se recebeste o prêmio "Diz que até não é um mau blog", deves escrever um post :
- Indicando a pessoa que te deu o prêmio com um link para o respectivo blog;
- A tag do prêmio;
- As regras;
- E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prêmio.
3. Deves exibir orgulhosamente a tag do prêmio no teu blog, de preferência com um link para o post em que falas dele.


Não poderei indicar 7 blogs pois o meu universo de visitas é muito reduzido e, em alguns casos, estaria a repetir anteriores nomeações, refiro-me ao Almofariz, à Dama Oculta que me nomeou, e à Ortografia do Olhar ...


Nomeio os blogs:




...sem qualquer "obrigação" na continuidade das atribuições. A nomeação vale por si!

26 de novembro de 2007

A morte o amor a vida

Julguei que podia quebrar a profundeza a imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido pelo amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue

Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula

Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros tempos

Os campos então lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estrelas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a sua natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.



Paul Eluard

24 de novembro de 2007

As pequenas descobertas

sabias que esta noite eu desejei
que a vida, seguindo um simples capricho,
passasse a desvendar todos os atalhos,
e nos conseguisse encontrar?

para trazer à minha volta,
o teu sorriso de pólen e a falsa
excitação do abismo sob os pés.

que todos os cabelos ao luar revoltos,
se transformassem em borlas de algas tenras,
passamanaria entre nossos dedos.

foi quando ouvi o choro dos ciprestes,
e abrindo os olhos,
eras novelo perto do meu rosto,
espelho opaco mas sensível

às minhas mãos em cunha,
buscando nos teus ângulos,
a presença do sopro que me anima:
a tua luminosa quietude.



Carlos Henrique Leiros
do Almofariz

Dawn



Keith Carter

A perder de vista

NO SENTIDO DO MEU CORPO



Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos


O amor é o homem inacabado.



Paul Eluard

20 de novembro de 2007

Haja o que houver

Madredeus

Vem sentar-te comigo Lídia

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos com o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levardes o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.



Ricardo Reis

4 de novembro de 2007

Your choice



Manuel Librodo

Amor

As árvores do outono sobrepõem-se sob o alpendre esculpido
inumeráveis núvens floridas escoltam o sapo de jade
alguns fios de perfume nocturno atravessam a cortina bordada
ela espera escondida
a porta meio aberta
meio fechada




Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

Dyed



Manuel Librodo

Tal e qual

A cerca de bambus, tinidos de jade
Na janela folhas de bananeira, reflexos de seda verde
por entre os risos o som do pipa
em cima da árvore dança uma lua pálida
o vento perfuma-se na opulência das flores
casa duma dama elegante
uma adorável empregada jovem filtra o chá




Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

3 de novembro de 2007

Bloom



Manuel Librodo

Improviso ao lado de uma ameixieira

À chuva as flores abrem
o viajante chega do outro lado das núvens
embora lhe deva um poema inacabado
reencontramo-nos com alegria
declive sinuoso na direcção do quiosque o jade derrete-se
pequena árvore polvilhada de borboletas
na espuma de neve e de pétalas
afundam-se as nossas alpergatas de pano escuro




["um poema inacabado": o poeta tem uma "dívida poética" para com um amigo que lhe dedicara um poema ao qual ainda não respondeu. O tema do encontro com a ameixieira em flor na paisagem nevada é uma alegoria da procura da inspiração poética.
"o jade": a neve]




Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

1 de novembro de 2007

Dyes



Manuel Librodo

Colours



Manuel Librodo

Escrito como o vi

Uma brisa ligeira agita as folhas do salgueiro
os lótus de flores ébrias embebem-se de poente
nos montes distantes pálidas núvens acariciam o céu ainda claro
a rapariga dos pós vermelhos tem seguramente doze,treze anos
docemente, ela recolhe uma canoa carregada de nenúfares



Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

Aqui nesta praia | 37



East Hampton, Long Island
Winslow Homer

28 de outubro de 2007

Guarda-me o dia em sua luz a graça

Guarda-me o dia em sua luz a graça
da hora final em ouro que debrua
a nuvem no abandono que extenua
a lembrança em recato enquanto passa

ao banho de águas claras e flutua
o espírito no tanque aonde a baça
marca de amigos passos vai na traça
da recta infinitude e desvirtua

esta os sentidos Pronto o lugar sei
o pé detém-se a erva fique intacta
e que o chão é incólume verei

do sol a declinar que ali desata
incêndios no horizonte: então fenece
o dia e meu refúgio me aparece.




Walter Benjamin
tradução de Vasco Graça Moura

23 de outubro de 2007

Green Grass of Tunnel

E colho um tufo de erva do teu corpo, como-o, deito-me nele, sinto-lhe a humidade que ficou da última noite, quando nos deitámos e rebolámos e cruzámos, com insectos a medirem-nos a respiração, prostro-me sob a sombra do teu peito, deixo cair dos olhos alguns flocos de neve. Andamos sempre à procura de uma noite que não tem dias, uma noite sem sinais, candeeiros que reflectem a agitação dos mosquitos à queima-roupa. Andamos como uma letra despovoada, nos silos da ternura, a encostar um sopro a outro sopro. Nada nos cura.



Henrique Fialho
Insónia

Edge









Nicholas Hughes

Paixão

estou no mais alto
da pura manhã

o meu coração é uma lágrima enorme
um frágil astro
que procura na linha dos teus lábios
o despertar generoso
dos solstícios
o alegre andamento
das estações

e quando desces a montanha do teu sono
e ficas tão nua da noite

eu
eu só sou
o sereno rio que passa
e que numa paixão de luz
te leva
ao azul infinito do mar



gil t. sousa
#poesia

18 de outubro de 2007

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.



David Mourão-Ferreira

Aqui nesta praia | 36



Les Deux Baigneuses
William-Adolphe Bouguereau

17 de outubro de 2007

Farringdon



Richard Bram

Sexy Like Chicken



Richard Bram

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.



Joaquim Pessoa

Keep Clear



Richard Bram

Face a Face

Entendamo-nos:
falar de ti e dos teus olhos de garça enevoados
seria talvez tão vulgar como enumerar as coisas simples e nisso
não há qualquer desafio
Existe apenas uma razão íntima, como a de quem
não gosta de se repetir ou de estar de costas voltadas para o mar,
amando o imprevisto como um sinal de alarme

Também, falar de mim, poderia tornar-se perigoso,
se me virasse para dentro, habitando a minha memória e não
a memória de todos os meus dias: Fariseu único
de um Templo de Escadas Rolantes
quando vejo mudar a água em sangue
e arregaçar as mangas para transformar uma seara em pão
não deixando ao diabo esse trabalho de
mostrar que a realidade não é o que é
mas sempre o outro lado da indiferença

E bato as esquinas levando a pederneira
com que se acendem os poemas que alimentam as primeiras esperanças
atravessando nas passagens de peões com a precaução da caça perseguida
e a preocupação de me dar
desinventando mágoas, repartindo alegrias
como quem escreve um tratado de amizade
num país de vidro onde a dor está mais escondida
que os ovos da codorniz no coração da erva



Joaquim Pessoa

16 de outubro de 2007

Countdown



Richard Bram

O Metropolitano

No túnel encurvado ali íamos nós.
à frente, ágil, de casaco de viagem, tu,
e eu, a apanhar-te como um deus veloz
antes que te mudasses em bambu

ou nalguma nova flor branca e vermelha,
e as abas a adejarem com força, eis que se espalha
botão após botão num rasto que assim role
entre o metropolitano e o Albert Hall.

Lua de mel, andar na lua, tarde para os Promenade,
os nossos ecos morrem nesse corredor e agora hei-de
ir como Hansel ia pelas pedrinhas batidas pela lua
refazendo o caminho, apanhando os botões da rua

para acabar nas correntes de ar e na luz frouxa da estação,
partindo os combóios, na via húmida que jaz
a nu e tensa como eu, todo atenção
aos teus passos e a perder-me se olho para trás.



Seamus Heaney
tradução de Vasco Graça Moura

15 de outubro de 2007

In Darkness Visible










Nicholas Hughes

Parto feliz quanto o silêncio o sele

Parto feliz quanto o silêncio o sele
de que ao nascer fui logo destinado
a ser brilho da noite no olhar dado
a quem silente ao vasto céu se impele

a ser raio que toca os olhos dele
e em que feliz está quem não é nado
e junto à face a ser mais afagado
que no azul voga em nuvem que revele

a luz Estava escrito nunca havia
de me vibrar a boca sem o canto
e a minha fronte o extremo arco seria

do berço em prece ardente a orlá-lo enquanto
aconteceu que me escapou então
com minha jovem morte em sua mão.



Walter Benjamin
tradução de Vasco Graça Moura

12 de outubro de 2007

Cold Night



Richard Bram

mão

e a minha mão
desceu o teu rosto
num movimento
de coisa que parte

e tu disseste:
porque é que as mãos
dos que amámos
nos acenam vazias?

mas não
na minha mão
havia uma lágrima enorme
e azul
que tu
já não sabias ver




gil t. sousa
do blog #poesia

Domingo no mundo | 18



Tango Musicians, San Telmo - Buenos Aires
Richard Bram

10 de outubro de 2007

Cry me a river

Diana Krall

Dolor



Josephine Sacabo

Notívaga sombra

temo que anotes,
no suor velado do teu cálice,
que o contar dos dias me apavora.

e que eu deixo o rosto,
pender sobre o peito sem fôlego,
para que essas lágrimas não sejam de ninguém.

vou confundi-las com chuva,
e me ocultar nas sombras.
sobre meu corpo deitar-se-ão véus.

de modo a que não mais me reconheças,
no meio de tantos assobios,
de tantos trapos açoitados,

na longa noite que me envencilhou.



Carlos Henrique Leiros
do blog Almofariz

Ler contra o silêncio | 13



Compartment C, Car 293
Edward Hopper

Gilded Circle



Josephine Sacabo

Acto de união | 2

Ainda imperialmente macho nesta altura
eis-me a deixar-te com o sofrimento:
na colónia o processo de ruptura,
o ariete, o romper do dique por dentro.
O acto gerou uma quinta coluna
obstinada crescendo unilateral,
de coração tambor de guerra que reuna
as forças sob o teu. Seus punhos, afinal,
pequenos, néscios, parasitas, já
te batem nas fronteiras e sei-os retesados
através da água contra mim. Nenhum tratado dá,
prevejo, inteira cura ao teu corpo marcado
e assim lasso de estrias, dor grande que te fez
em carne viva, como chão aberto, uma outra vez.



Seamus Heaney
traduzido por Vasco Graça Moura

Las palomas



Josephine Sacabo

8 de outubro de 2007

Acto de união | I

Esta noite, um primeiro movimento, uma pulsão,
como se a chuva no pântano jorrasse uma cabeça:
um rebentar do lodo ou um rasgão
que abre a cama dos fetos e a atravessa.
O teu dorso é uma linha firme da costa a nascente
e além das graduais colinas são lançados
braços e pernas. Acaricio a entumescente
província onde cresceu o nosso passado.
Sou o alto reino sobre o teu ombro quedo
e em ti nada o adula ou o ignora.
Conquistar é mentira. Envelheço e concedo
teu litoral semi-independente e agora
dentro dos seus limites meu legado
fica inexoravelmente culminado.



Seamus Heaney
traduzido por Vasco Graça Moura

À luz da lua | 23



Mother and Child
Lord Frederick Leighton