23 de novembro de 2016

A Biblioteca Vazia

Conto escrito sobre A Biblioteca, de Zoran Zivkovic.

Caros companheiros do clube de leitura

Pareceu-me apropriado sugerir que nos encontrássemos hoje para uma degustação. No encalce de Zoran cada um de nós deliciar-se-ia com o seu livro, partilhando os sabores originais que tal manjar descobriria, ou não…contudo… encontro-me impedida de o fazer.

Terminada ontem a leitura, guardei como sempre o meu Zoran, na minha mochila, no seu compartimento. Esta seria a última vez que nos veríamos. Em casa, quando mergulhei a minha mão para recolher, ciosa, e uma a uma, todas as bibliotecas lidas, não as encontrei. Nenhuma, sem explicação e sem rasto.

Nunca, nenhum livro, por muito fraco, decrépito, ruim ou danado que fora, se atrevera a deixar alguém. Mas Zoran fê-lo. Zoran atreveu-se a desafiar o impossível. Zoran chamou-me de modo furtivo e dissimulado, abraçou-me, levou-me por atalhos singulares e estrangeiros. Desafiou-me no exato e cirúrgico modo que sabia me aprazer e, depois, sem mapa e sem código secreto ainda revelado, partiu.

Ainda estranha, só, e desconvencida, entrei no hall da minha casa e olhei para o irreparável. Nada me aguardava. As estantes, onde nas horas anteriores e matinais se acomodavam ainda, confortáveis, afeitos e familiares, inúmeros livros de tantos tamanhos, cores e cheiros, estavam agora despojadas e desoladas no seu vazio. Tristes e culpadas por, de algum modo, terem falhado na sua guarda.

Cheirei-as no desespero insano deles ainda estarem por ali, de algum modo, num estado existencial improvável. Nada. Apenas um vazio clórico e estéril.

Aquele espaço é agora um bairro desalojado e ímpio. Sem misericórdia e sem perdão. Não há ninguém a quem procurar, não há ruído de viagens naquela primeira estante, não serei mais saudada pelos poetas encostados na estante do meio, que me cantam, e me amam, sem compromisso e sem abandono, não terei mais conversas ao final do dia com os livros que me esperavam junto à porta. Não saberei de mais intrigas, ou mal entendidos, das mortes ocorridas, as lutas travadas, a vida gerada.

Resta-me a biblioteca vazia.

Preciso encontrar Zoran. Ele terá de me revelar esta singularidade.

Não sei se chegarei a tempo ao nosso encontro...

8 de novembro de 2016

Screen I


Alexandra Hedison

Explicação da eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim. 


José Luís Peixoto