6 de junho de 2016

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto

1 de abril de 2016

Noite apressada

Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!

David Mourão-Ferreira

21 de março de 2016

Passagem

Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e diremos rios?


Manuel António Pina

22 de fevereiro de 2016

A noite encosta-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente

"A noite encostou-se nas minhas costas como uma irmã que esteve ausente,
e prometeu-me que a morte é apenas mais um movimento,
porque os nossos dias são um ciclo de Perseidas que não se extingue."



30 de abril de 2014

Boca da Foz (V)

Pelo caminho do estaleiro vê-se uma linha de luzes que ilumina os últimos homens que regressam a casa. Ouvem-se amiúde, pedaços da sua conversa, e gargalhadas. O mesmo ritual de todos os dias a refocilar o ânimo e a camaradagem que os une.
Antes de entrar em casa, Natália vê Sebastião encostado na janela do quarto e lembra-se das pequenas conversas que têm. Recorda-se das primeiras, quando ele lhe perguntava, várias vezes, e sempre como se fosse a primeira vez: “Para onde foram os papás?”. Natália respondia-lhe: “Partiram, meu amor!”. Ao final de algum tempo, provavelmente depois de Sebastião considerar que a mesma resposta sempre dada seria um sinal convincente sobre a sua veracidade, começou a questionar: “Para onde?”. E aí Natália respondeu “Para as estrelas!”. Depois disso, passaram a falar de muitas outras coisas, e de astronomia. Sebastião começou a interessar-se pelos cometas, pelos planetas e pelas estrelas e, todos os dias, Natália lhe ensinava uma palavra nova sobre o universo. Paralaxe tinha sido a palavra de hoje e ele estava absolutamente fascinado. Encostado ao vidro da janela olhava um céu repleto de retas que ia traçando e desenhando numa folha de papel. Um autêntico xadrez espacial.

A lua move-se suavemente. Ouve-se ao longe o caminhar suave das águas do rio, sem pressa de chegar ao mar. Natália já deitou Sebastião e, sentada no alpendre, espera. Daquele lugar, avista a praia pequena no lado mais norte da vila. Fica atenta. Há noites em que vê alguém a mergulhar naquelas águas. Uma mulher de cabelos longos e ondulados, que se incendeiam quando um raio de luar lhes toca. E um homem que chega depois. Abraçam-se. Agarram-se. Prendem-se. Juntos parecem duas asas. Natália observa-os com profunda admiração. Guarda-os de longe. Emociona-se. Reconhece-os.

Uma luz pálida dança na charneca ao seu lado, aproxima-se, roça nas suas pernas e pára.  

Simão abre o vidro do carro e respira fundo o ar tépido daquela noite. Aguarda um momento dentro da viatura e olha para Natália sentada no alpendre. Ela espera. Aquela mulher é o seu abrigo, a sua carne, a sua luta e a sua paz. Lê toda a sua vida naquele pequeno corpo iluminado. Simão hesita em sair do carro. Aquele momento é sublime e belo. Quase insustentável. Natália espera. A lua move-se como um candelabro mágico. Simão abre a porta do carro. Ela sorri.

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Cloudy sky and shining sea 2