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Ler contra o silêncio | 21

Special book
David Hettinger
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Auto-retrato

Ellen Thesleff

Emboscadas

Foste como quem me armasse uma emboscada
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei

Resgatei o teu sorriso
quatro vezes foi preciso
por não precisares de mim
e depois, quando dormias
fiz de conta que fugias
e que eu não ficava assim
nesta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim

Foste como quem lançasse as armadilhas
que se lançam aos amantes
quando amar foi coisa em vão
foste como quem vestisse as mascarilhas
dos embustes que se tramam
ao cair da escuridão

Resgatei o teu carinho
quatro vezes fiz o ninho
num beiral do teu jardim
e depois já em cuidado
vi no espelho do passado
a tua imagem de mim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim

Foste como quem cumprisse uma vingança
que guardava às escuras
esperando a sua vez
foste como quem me desse uma bonança
fraquejando à tempestade
de tão frágil que se fez

Resgatei o teu ciúme
quatro vezes deitei lume
ao teu corpo de marfim
e depois,…

Evening song

Sir George Clausen

Echo

Ellen Thesleff

Testamento

Se por acaso morrer durante o sono não quero que te preocupes inutilmente. Será apenas uma noite sucedendo-se a outra noite interminavelmente.
Se a doença me tolher na cama e a morte aí me for buscar, beija Amor, com a força de quem ama, estes olhos cansados, no último instante.
Se, pela triste monotonia do entardecer, me encontrarem estendido e morto, quero que me venhas ver e tocar o frio e sangue do corpo.
Se, pelo contrário, morrer na guerra e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia, quero que saibas, Amor, quero que saibas, pelo cérebro rebentado, pela seca veia,
pela pólvora e pelas balas entranhadas na dura carne gelada, que morri sim, que me não repito, mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

Rui Knopfli