12 de agosto de 2010

Crónica da Rapariga à Chuva

"Há bocadinho fui espreitar à janela e estava uma rapariga lá em baixo, à chuva. Isto às onze da manhã, a rua deserta e ela imóvel diante da agência de viagens, sem gabardina sequer, à chuva. Cabelos curtos, sapatos de ténis, os braços ao comprido do corpo, sozinha como uma estátua. Não volto à janela porque não quero encontrá-la, parece acusar-me de uma falta que desconheço, afigura-se-me um remorso vivo. À chuva. Não acaba, este inverno, esta solidão magoada, desconfortável. (...)"


António Lobo Antunes
http://aeiou.visao.pt/cronica-da-rapariga-a-chuva=f568316

6 de agosto de 2010

Canção para Leonard Cohen

enquanto nos faltarem fotografias
o futuro estará à deriva.
pero si. yes. la ciudad. a cidade.
a cidade que assinala a urgência no meu
vestido comprido e justo, saída do banco
com o dinheiro negro. the money.
money likes rain. chove.
é insuficiente dizer que chove.
é como dizer dinheiro. ou love. (love não
quer dizer amor). d'accord, got it, há
máximos e mínimos.
concepções copernicianas do espaço.
leonards cohens que espiam atrás de
canções bifurcadas. gerações diferentes.
a realidade não dá conta do recado
because it depends on, you know, pois
depende do expressável. representável.
não basta dizer «tudo tem uma duração».
é preciso dizer «tudo é uma duração».
pero si, chica. la ciudad! a cidade. sim.
mas cala-te um pouco. a cidade
onde agora faz sol. sabe: o sol só é
auto-expressável porque é cópia de si mesmo.
todos os dias copia a fórmula recém-passada
de aplanar nos rostos que vão
demolindo a arte de acordar. wake. up.
e nada resulta para mim.
e nem a metáfora é analgésico.
talvez seja a frequência do subterrâneo
desta cidade de vídeo e respeito
onde cada medo seu espreita atrás de um outro
e um tédio urbano
me surrealiza o dom dos olhos.


Sylvia Beirute
do blog Uma Casa em Beirute

First...we take Manhattan




Leonard Cohen

5 de agosto de 2010

Cinge-se a vida ao diâmetro do pescoço

cinge-se a vida ao diâmetro do pescoço,
nas minhas mãos tenho os teus ombros,
envoltos em pele, inesperados,
nas tuas costas o mundo silencia
e trago-te à vida,

as minhas mãos são um berço
de intenções assimétricas e perfeitas,
e quando os segundos se adensam no perímetro
desconcertante do teu olhar, o instinto demora-me,
como duas ilhas os meus joelhos nascem e
afastam-se desafiando o suor frio da solidão,
desalinhando os braços num rasto de palavras desacordadas,


cinge-se a vida ao diâmetro do pescoço,
mas sobra-nos espaço,
sobra-nos amor...



alma

Touch the hand of love



Blossom Dearie




Renee Fleming/Chris Thile
Yo-Yo Ma, Edgar Meyer, Chris Thile, Nicolas Cords/Jonathan Gandelsman

Study of Kelsie I & II




Lucong

diz-me

diz-me um segredo
qualquer coisa inacessível
dessa tua alma

alguma coisa
que eu possa ainda fingir
que não sei


gil t. sousa
no blog exercícios de esquecimento

4 de agosto de 2010

Someone to watch over me

Blossom Deary

4 anos...

4 anos...nesta ilha por vezes habitada!







Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.



poema de José Saramago
pintura "Sonidos del mar" de Antonio Carzola

3 de agosto de 2010

Praia e dunas...









Antonio Cazorla

Eu luminoso não sou

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.


José Saramago

Blue Jeans





Antonio Cazorla

do teu nome

sobra de todo o silêncio
o raro acorde
do teu nome

a que solidão altíssima
me entregas
quando te deixas morrer assim
no abraço faminto
do tempo?


gil t. sousa