28 de outubro de 2007

Guarda-me o dia em sua luz a graça

Guarda-me o dia em sua luz a graça
da hora final em ouro que debrua
a nuvem no abandono que extenua
a lembrança em recato enquanto passa

ao banho de águas claras e flutua
o espírito no tanque aonde a baça
marca de amigos passos vai na traça
da recta infinitude e desvirtua

esta os sentidos Pronto o lugar sei
o pé detém-se a erva fique intacta
e que o chão é incólume verei

do sol a declinar que ali desata
incêndios no horizonte: então fenece
o dia e meu refúgio me aparece.




Walter Benjamin
tradução de Vasco Graça Moura

23 de outubro de 2007

Green Grass of Tunnel

E colho um tufo de erva do teu corpo, como-o, deito-me nele, sinto-lhe a humidade que ficou da última noite, quando nos deitámos e rebolámos e cruzámos, com insectos a medirem-nos a respiração, prostro-me sob a sombra do teu peito, deixo cair dos olhos alguns flocos de neve. Andamos sempre à procura de uma noite que não tem dias, uma noite sem sinais, candeeiros que reflectem a agitação dos mosquitos à queima-roupa. Andamos como uma letra despovoada, nos silos da ternura, a encostar um sopro a outro sopro. Nada nos cura.



Henrique Fialho
Insónia

Edge









Nicholas Hughes

Paixão

estou no mais alto
da pura manhã

o meu coração é uma lágrima enorme
um frágil astro
que procura na linha dos teus lábios
o despertar generoso
dos solstícios
o alegre andamento
das estações

e quando desces a montanha do teu sono
e ficas tão nua da noite

eu
eu só sou
o sereno rio que passa
e que numa paixão de luz
te leva
ao azul infinito do mar



gil t. sousa
#poesia

18 de outubro de 2007

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.



David Mourão-Ferreira

Aqui nesta praia | 36



Les Deux Baigneuses
William-Adolphe Bouguereau

17 de outubro de 2007

Farringdon



Richard Bram

Sexy Like Chicken



Richard Bram

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.



Joaquim Pessoa

Keep Clear



Richard Bram

Face a Face

Entendamo-nos:
falar de ti e dos teus olhos de garça enevoados
seria talvez tão vulgar como enumerar as coisas simples e nisso
não há qualquer desafio
Existe apenas uma razão íntima, como a de quem
não gosta de se repetir ou de estar de costas voltadas para o mar,
amando o imprevisto como um sinal de alarme

Também, falar de mim, poderia tornar-se perigoso,
se me virasse para dentro, habitando a minha memória e não
a memória de todos os meus dias: Fariseu único
de um Templo de Escadas Rolantes
quando vejo mudar a água em sangue
e arregaçar as mangas para transformar uma seara em pão
não deixando ao diabo esse trabalho de
mostrar que a realidade não é o que é
mas sempre o outro lado da indiferença

E bato as esquinas levando a pederneira
com que se acendem os poemas que alimentam as primeiras esperanças
atravessando nas passagens de peões com a precaução da caça perseguida
e a preocupação de me dar
desinventando mágoas, repartindo alegrias
como quem escreve um tratado de amizade
num país de vidro onde a dor está mais escondida
que os ovos da codorniz no coração da erva



Joaquim Pessoa

16 de outubro de 2007

Countdown



Richard Bram

O Metropolitano

No túnel encurvado ali íamos nós.
à frente, ágil, de casaco de viagem, tu,
e eu, a apanhar-te como um deus veloz
antes que te mudasses em bambu

ou nalguma nova flor branca e vermelha,
e as abas a adejarem com força, eis que se espalha
botão após botão num rasto que assim role
entre o metropolitano e o Albert Hall.

Lua de mel, andar na lua, tarde para os Promenade,
os nossos ecos morrem nesse corredor e agora hei-de
ir como Hansel ia pelas pedrinhas batidas pela lua
refazendo o caminho, apanhando os botões da rua

para acabar nas correntes de ar e na luz frouxa da estação,
partindo os combóios, na via húmida que jaz
a nu e tensa como eu, todo atenção
aos teus passos e a perder-me se olho para trás.



Seamus Heaney
tradução de Vasco Graça Moura

15 de outubro de 2007

In Darkness Visible










Nicholas Hughes

Parto feliz quanto o silêncio o sele

Parto feliz quanto o silêncio o sele
de que ao nascer fui logo destinado
a ser brilho da noite no olhar dado
a quem silente ao vasto céu se impele

a ser raio que toca os olhos dele
e em que feliz está quem não é nado
e junto à face a ser mais afagado
que no azul voga em nuvem que revele

a luz Estava escrito nunca havia
de me vibrar a boca sem o canto
e a minha fronte o extremo arco seria

do berço em prece ardente a orlá-lo enquanto
aconteceu que me escapou então
com minha jovem morte em sua mão.



Walter Benjamin
tradução de Vasco Graça Moura

12 de outubro de 2007

Cold Night



Richard Bram

mão

e a minha mão
desceu o teu rosto
num movimento
de coisa que parte

e tu disseste:
porque é que as mãos
dos que amámos
nos acenam vazias?

mas não
na minha mão
havia uma lágrima enorme
e azul
que tu
já não sabias ver




gil t. sousa
do blog #poesia

Domingo no mundo | 18



Tango Musicians, San Telmo - Buenos Aires
Richard Bram

10 de outubro de 2007

Cry me a river

Diana Krall

Dolor



Josephine Sacabo

Notívaga sombra

temo que anotes,
no suor velado do teu cálice,
que o contar dos dias me apavora.

e que eu deixo o rosto,
pender sobre o peito sem fôlego,
para que essas lágrimas não sejam de ninguém.

vou confundi-las com chuva,
e me ocultar nas sombras.
sobre meu corpo deitar-se-ão véus.

de modo a que não mais me reconheças,
no meio de tantos assobios,
de tantos trapos açoitados,

na longa noite que me envencilhou.



Carlos Henrique Leiros
do blog Almofariz

Ler contra o silêncio | 13



Compartment C, Car 293
Edward Hopper

Gilded Circle



Josephine Sacabo

Acto de união | 2

Ainda imperialmente macho nesta altura
eis-me a deixar-te com o sofrimento:
na colónia o processo de ruptura,
o ariete, o romper do dique por dentro.
O acto gerou uma quinta coluna
obstinada crescendo unilateral,
de coração tambor de guerra que reuna
as forças sob o teu. Seus punhos, afinal,
pequenos, néscios, parasitas, já
te batem nas fronteiras e sei-os retesados
através da água contra mim. Nenhum tratado dá,
prevejo, inteira cura ao teu corpo marcado
e assim lasso de estrias, dor grande que te fez
em carne viva, como chão aberto, uma outra vez.



Seamus Heaney
traduzido por Vasco Graça Moura

Las palomas



Josephine Sacabo

8 de outubro de 2007

Acto de união | I

Esta noite, um primeiro movimento, uma pulsão,
como se a chuva no pântano jorrasse uma cabeça:
um rebentar do lodo ou um rasgão
que abre a cama dos fetos e a atravessa.
O teu dorso é uma linha firme da costa a nascente
e além das graduais colinas são lançados
braços e pernas. Acaricio a entumescente
província onde cresceu o nosso passado.
Sou o alto reino sobre o teu ombro quedo
e em ti nada o adula ou o ignora.
Conquistar é mentira. Envelheço e concedo
teu litoral semi-independente e agora
dentro dos seus limites meu legado
fica inexoravelmente culminado.



Seamus Heaney
traduzido por Vasco Graça Moura

À luz da lua | 23



Mother and Child
Lord Frederick Leighton

7 de outubro de 2007

Soñando



Josephine Sacabo

Fragmento de ...

Amor no Feno e outros Contos de D. H. Lawrence

"(...) Despontava a fria madrugada quando Geoffrey acordou. A mulher dormia ainda nos seus braços. O rosto adormecido despertou nele uma imensa onda de ternura: os lábios comprimidos, como que decididos a suportar o que custava muito a suportar, contrastavam tanto com o formato pequeno das feições, que metiam dó. Geoffrey apertou-a ao peito: por possuí-la sentia que podia vingar-se dos sorrisos de escárnio, passar pelos outros de cabeça levantada, invencível. Com ela completando-o, constituindo o seu cerne, sentia-se firme e completo. Precisava tanto dela que a amava fervorosamente.(...)"

6 de outubro de 2007

Male figure



Keith Carter

Fragmento de ...

Amor no Feno e outros Contos de D. H. Lawrence

"(...)A chuva caía persistentemente; a noite era um golfo negro. Tudo estava intensamente calmo. Geoffrey pôs-se à escuta: só ouvia a chuva. Parou entre as medas, mas não ouvia mais do que o pingar da água, as chicotadas ligeiras da chuva. Tudo estava perdido na escuridão. Imaginou que a morte havia de ser assim, muitas coisas dissolvidas no silêncio e negrura, apagadas, mas em existência. Na densa negrura, sentiu-se quase extinto. (...)"

5 de outubro de 2007

Corinne at the Western Motel



Corinne
Hommage á Edward Hopper
Clark et Pougnaud




Western Motel
Edward Hopper

Shining

Quando dormes para o lado dos meus sonhos, das minhas angústias graníticas, e tocas como os sinos por dentro do meu corpo, trazendo-me à pele o suor do amor, quando espias os meus dedos debaixo dos lençóis, deixando as promessas prolongarem-se pelas carnes como o vento se prolonga pelas sementeiras, relembrados na fragrância de uma criança adormecida, a nosso lado, amarrando-nos o sono à resolução dos caminhos há muito traçados, os dedos. Quando dizes os teus olhos brilham no meu canto, ouço sem esmero nem glória a música do teu corpo.



Henrique Fialho
do blog Insónia

3 de outubro de 2007

the Nighthawks: Anne-Charlotte, Arnaud et Stephane



Anne-Charlotte, Arnaud et Stephane
Hommage á Edward Hopper
Clark et Pougnaud




Nighthawks
Edward Hopper

flor de sal

não chames por mim
levo nos olhos queimados
o fim dos desertos

não te posso escutar
na branca solidão dos dias
porque até no meu silêncio
te matei

não chames por mim
levo nos passos
o veneno da Lua

a espuma do tempo
sai-me das mãos vazias
e apaga o trilho
por onde as vozes
podem chegar

não chames por mim
levo o peito tão rasgado
de ausência!

e no meu coração
só há
uma vermelha flor de sal
que já ninguém
pode tocar



gil t. sousa
do blog #poesia

Domingo no mundo | 17



Jumping over waves
Jeffrey Wolin

2 de outubro de 2007

Mireille in the Hotel Room



Mireille
Hommage á Edward Hopper
Clark et Pougnaud




Hotel Room
Edward Hopper

Recebes a noite

Recebes a noite, na vaga incerta
de lucidez. Todo alado e desnorte.
Abre-se a nave intransponível do teu peito.
Nenhum lugar dele se acede.
Quieto, sondas a manifesta dor,
o erro fulgurante
dança-te diante dos olhos.
É tarde - dizes - e estendes os dedos
ao limite próximo da sombra.
Dás um passo. Caminhas?
Daqui é somente a noite que te engole
ou tanta outra loucura
que te nomeia.




Fernando M. Dinis
do blog FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO

Virginie in the Morning Sun



Virginie
Hommage á Edward Hopper
Clark et Pougnaud




Morning Sun
Edward Hopper

1 de outubro de 2007

Dia Mundial da Música



nearness of you



autumn



rooftop



Kenney Mencher

Diário de praia | 7

À flor de um horizonte, num sorriso
ou na sombra de remos sobre o mar,
procurando-me, encontro o que preciso:
obscuros motivos de sonhar.



David Mourão-Ferreira

Swimmers II



Sally Gall

Diário de praia | 6

A concentrada noite se manteve
intacta - embora nós a atravessássemos
com passos desesperados e doridos.



David Mourão-Ferreira

Bathing beauty



Sally Gall

Diário de praia | 5

Nesta melancolia verdadeira
a súbita pancada do outono,
pequena embora fosse, foi tamanha
que teve quase o gosto duma posse.



David Mourão-Ferreira

Swimmers I



Sally Gall

Diário de praia | 4

Do meu amor perfeito, flor ausente,
não lembro o rosto nem a voz:

lembro a fadiga sorridente
que havia, ao fim, em cada um de nós.



David Mourão-Ferreira

Linda II



Sally Gall

Diário de praia | 3

Pior que o esquecimento era a suspeita
de que o inverno em mim amarelecera

toda a razão de ser da primavera.



David Mourão-Ferreira

Andrea



Sally Gall

Diário de praia | 2

De quanta liquidez e espanto somos feitos!
A dor, quanto menor, não lembra o que passou,
nem que desvios fez dos ventos imperfeitos...

Teu medo foi a flor que o meu amor quebrou.



David Mourão-Ferreira

Linda



Sally Gall