28 de fevereiro de 2007

À luz da lua | 14


Pregnant woman
Frans Koppelaar

Acontecimento

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.

Albano Martins

27 de fevereiro de 2007

Studying



Bui Huu Hung

Praying



Bui Huu Hung

A resistência à teoria

Eu ficarei à espera de que as uvas
das minhas videiras
amadureçam
à luminosidade da palavra
dia.

Daniel Jonas

Dance of life



Andrew Lewandowski

The dance of life


Edvard Munch

A Vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.

Nuno Júdice

Aqui nesta praia | 26


Reading by the shore
Charles Sprague Pearce

26 de fevereiro de 2007

Evening


Anne Horst

Segredo

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega.


David Mourão-Ferreira

Amor em solidão

Estrela que morreu
Ainda palpita em vão
A tua luz sou eu
Amando em solidão
Noturno mar sem Deus
Tu és na escuridão
Igual aos cantos meus
Uma desolação
Ah, se eu pudesse dizer-te
Que pela graça de ver-te
Já nem me importa ter que fingir
E a cada ruga que nasce
Tento esconder minha face
Na máscara que te faz sorrir
Porque este amor demais
Que nunca vai ter fim
Na morte que me traz
É a vida para mim.

Vinícius de Moraes

23 de fevereiro de 2007

Colourful silence



Frank Pudney

São tristes os meus dias com pedras

São tristes os meus dias com pedras
em lugar de mãos
ou a cabeça funda na brancura
de través do travesseiro
e o corpo depresso em moles guindastes.
São dias de chorar por menos
ou teimar queixoso com um crânio polido,
batuque convexo
no muro demorado.

Ficar a ouvir o sangue,
o som tubular do sangue. Ao vale seco
da clavícula atrair a água, o sangue
e sorver a sopa intestina
ou se o líquido escapa à boca
tantálica, calar com argila
o que me pede água.

Ficar a palpar os buracos
da ausência, as ligas
da ausência, as ribanceiras
a que caem os pensamentos, a cor
dióspiro que banha a enfermidade
e em seguida tomar o pulso
evadido, travar o touro, o soco da dor,
o infinito infinitivo presente.

Uma amálgama de alma
migra no fôlego de modorrento
pregão de dor, o condor
passa e anda andino e é uma
traça asfixiante: faço um céu rarefeito,
a dispneia é um felino
que arranha céus
e a boca rebuliço espúmeo
expele o sabor da morte
e o que mais consiga cuspir
por entre ovéns e enxárcias
e traves quebradas.

É uma desilusão com as coisas,
uma desilusão funda com as coisas,
com o vazio meio-cheio das coisas.
Meu fôlego um fólio cheio
de silêncio, uma catástrofe natural

um vulcão: no meu pulmão pôr lava
e no trovão treva.

Daniel Jonas

22 de fevereiro de 2007

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

João Cabral de Melo Neto

16 de fevereiro de 2007

Breezing Up (A Fair Wind)












Winslow Homer


Vou aproveitar esta brisa de feição...estarei de volta no final da próxima semana. Fiquem bem!


Barcos

Um a um para o mar passam os barcos
Passam em frente de promontórios e terraços
Cortando as águas lisas como um chão

E todos os deuses são de novo nomeados
Para além das ruínas dos seus templos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Kung Hei Fat Choi







Porto Interior (Macau)
Carlos Marreiros


Feliz Ano Novo Lunar!

15 de fevereiro de 2007


















Zhang Jie

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

Voz

Olhamos à volta e não sabemos bem do que se trata. As mãos
estão imóveis há algum tempo. É dentro delas que cabe
tudo o que é nosso. O rumor que chega com o vento torna-se maior
ao repararmos agora nas folhas. Alguém principiou a chamar-nos
e é devagar que repete o mesmo nome, como se houvesse nos olhos
qualquer sombra porque assim é tudo o que se ignora. Ao longe
só ele pôde ver como estão os caminhos separados e as ondas
se dirigem ao encontro de outras praias. Ficou ali suspensa
uma luz desconhecida, agora recortada pela neblina que veio
com a manhã: quem se encontra sozinho talvez conheça melhor
o seu segredo. De novo se fecharam as nossas mãos. Há
uma árvore que desperta com a sua forma pesada e simples.

Fernando Guimarães

Aniversário

Salva-me agora, não desta morte ou de outra
mas de ir vivendo assim seguramente
sem música nem arte, e com o amigo ausente.
No escuro ainda levantei-me e vi
a antiga madrugada que nascia
leve e primeira com a luz macia.
E quem me ouvia, se não os mortos mansos
e generosos sob a lousa fria?
É certo que sonhei que me deixavas
amar e ser amado, como quem
sem mérito nem rosto me fizeste;
mas era de cantor que me mandavas
às portas da cidade ver arder o dia.

António Franco Alexandre

14 de fevereiro de 2007

Bonheur






















Marc Chagall

Amor é o olhar total

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre à àgua.

Fiama Hasse Pais Brandão

La promenade


















Marc Chagall

Falamos junto à luz

Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Bouquet aux amoureux volants






















Marc Chagall

Vidrado

Se a chuva parasse
continuarias a não estar aqui
pelo que prefiro que a chuva prossiga
como sulfúreo castigo;

se te olho através da vidraça
é porque penso ser um dia o namorado
fantasma
a espreitar-te do pára-brisas estilhado
como de insistente postigo.

Daniel Jonas

12 de fevereiro de 2007

Nell' Acqua




















































Lorenzo Mattoti

Acerca do sentido (3)

A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós finalmente se encontra uma nova imagem abandonada pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?

Fernando Guimarães

Acerca do sentido (1)

Aproxima-te. É assim que consegues encontrar algumas palavras. Estão juntas. Têm um sentido capaz de vir acompanhar-te como se pelos dedos escorresse um pouco de água, a sua transparência súbita. Recebe o que elas te podem dar agora, a respiração que fica tranquila e o mesmo aceno só para que depois consigas compreender como é fácil que tudo se perca nos teus olhos.

Fernando Guimarães

9 de fevereiro de 2007

Como um eco

Não tinhas nome. Existias como um eco do silêncio. Eras talvez uma pergunta do vento.

Albano Martins

Da Terra

Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar areia e margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.

Fiama Hasse Pais Brandão

8 de fevereiro de 2007

Domingo no mundo | 12















O meu mundo és tu e eu
Ricardo Tavares
www.olhares.com

Entranced


















Victor Wang

Aqueles claros olhos que chorando

Aqueles claros olhos que chorando
ficavam, quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?

Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou se estarão aquele alegre dia,
que torne a vê-los, na alma figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!

Luís de Camões

6 de fevereiro de 2007

Cair do Pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

da areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

Rui Knopfli

O Monhé das Cobras

Manhã gloriosa, imobilizada na distância,
no extremo da caixa de areia branca
onde, agachado, anónimo e ascético,
envolto em alvos panos e silêncio,
está. O pudvém cobre-lhe o escroto

e sobraça-lhe as pernas magras e finas
de esquálido aracnídeo. No topo o turbante
e a barba anciã oscilam na brisa matinal.
Principia, então, a enfeitiçar o dia,
com exactos gestos rituais. Ergue-se,

por fim, plangente e implorativo,
o sinuoso som, para revelar, em
lentos arabescos, os assombros guardados
no sábio cesto de vime. Obedientes,
as cobras capelo encenam, à maneira,

seu acto, a coberto da enganosa pintura.
Húmidas, dardejam ao sol, rápidas,
coruscantes e fatais línguas bífidas.
Nós, meninos, paralisados de medo
e espanto. A esteira irá perde-se

no longe da areia, gasto tapete voador
voando imóvel no céu profundo
da imaginação. Privilegiado observador
desta vigília acesa debruando já,
de mansinho, as margens do sono.

Rui Knopfli

5 de fevereiro de 2007

Bela Silva































Três Mulheres, poema a três vozes (IV)

PRIMEIRA VOZ:
Quem é ele, este rapaz azul e furibundo,
Brilhante e estranho, como se tivesse sido arremessado de uma estrela?
Tem um ar tão zangado!
Voou pelo quarto adentro, com um berro no calcanhar.
O azul empalidece. Afinal é humano.
Um lotus escarlate abre-se na sua poça de sangue.
Estão a coser-me com seda, como se eu fosse um pedaço de pano.

O que fizeram os meus dedos antes de o erguer?
O que fez o meu coração ao seu amor?

Nunca vi nada tão claro.
As suas pálpebras são como a flor do lilás
E suave como mariposa a sua respiração.
Não o abandonarei.
não há ambição ou maldade nele. Que assim possa permanecer.

Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

1 de fevereiro de 2007

Unrevealed I


















Dinh Quan

Canção de amor

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.

Por isso canto. Alegre ou triste,canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.

Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.

Assim quero cantar-te meu amor,
para além da morte, para além de tudo.

Joaquim Pessoa