16 de fevereiro de 2012

Não disse nada, amor

Não disse nada, amor, não disse nada:
foi o rio que falou ...com a minha voz
a dizer que era noite e é madrugada
a dizer que eras tu e somos nós.

A dizer os mil rostos e Lisboa
ao longo do teu rosto se te beijo.
À luz de um pombo chamo Madragoa
e Bairro Alto ao mar se te desejo.

Não disse nada, amor. Juro, calei-me:
foi uma voz que ao longe se perdeu.
Cuidei que era Lisboa e enganei-me
pensei que éramos dois e sou só eu.

António Lobo Antunes
encontrei no blog Há vida em Marta

10 de fevereiro de 2012

[Daria Endresen]

Esta noite o vento ceifa os bosques

Esta noite o vento ceifa os bosques e
uma raiva sacode a terra. se a voz
do mar chamasse pelas velas, os estreitos
aguardariam um naufrágio. E se dissesses
o meu nome eu morreria de amor.

Devo, por isso, afastar-me de ti ― não
por ter medo de morrer (que é de já não
o ter que tenho medo), mas porque a chuva
que devora as esquinas é a única canção
que se ouve esta noite sobre o teu silêncio.


Maria do Rosário Pedreira

8 de fevereiro de 2012

[Daria Endresen]

Brushing

Estranhava-lhe a forma de vestir e os olhos pintados de preto. Do espelho do cabeleireiro, que ficava no rés do chão do prédio da avó, espreitava-lhe o gestos lentos e os olhos indiferentes às conversas com cheiro a shampoo e amoníaco. Lavava cabeças. Menos quente, pedia-lhe, evitando tratá-la pelo nome próprio, Sílvia. Olha que ela gosta de mulheres, dizia-lhe a avó. Por isso, nunca a chamava pelo nome, que os nomes trazem excesso de intimidade. Põe creme? Só nas pontas, respondia enquanto pensava no incómodo que era ter a cabeça nas mãos de uma mulher que guardava uma fotografia de outra na bata preta. Pelo espelho observava-a, encostada ao carrinho dos rolos e das escovas, sorrindo para uma fotografia tipo passe, tirada numa estação de metro qualquer. Depois tirava da mala um queque de chocolate embrulhado num guardanapo de papel e ficava ali, com os olhos pintados de preto perdidos no chão cheio de cabelos. Ela, sentada na cadeira em frente ao espelho, com os cabelos a pingar na tolha branca, imaginava-a aos beijos com outra, que deveriam ter um sabor diferente, que ela graças a deus só beijara homens. Mas por mais que se esforçasse, não podia evitar de pensar a que saberia aquela boca com migalhas de bolo ao canto, sempre que Sílvia, ao deitar fora o guardanapo de papel, dizia, sou doida por chocolate.

CNS
http://come-chocolates.blogspot.com/
[Daria Endresen]

sei de uma hora

sei de uma hora
em que todos os relógios me fuzilam
e eu caio em tantos segredos
que nem sei
se são meus


gi t.sousa
exercícios de esquecimento

2 de fevereiro de 2012