12 de agosto de 2007

A caminho do campo...



The green hill
Winslow Homer



Deixo por aqui este rasto de campo, para onde me vou pondo a caminho...
Fiquem bem por cá.

Reencontramo-nos em Setembro!

The dinner horn



Winslow Homer

eira do catavento | 4. janeiro

os radiadores são pouco bucólicos, mas
aquecem a casa toda, impedem que tiritemos
e que a humidade venha aos livros.
na lareira da sala o fogo lambe o ar alegremente,
entre estalidos de lenha a crepitar


quando ela pega e não faz fumo,
e o temporal desabrido, lá fora, dá-nos a medida
de uma tépida mediania cá dentro, enquanto passam
as horas sem sobressalto e é já noite fechada
e sabe bem um chá bem quente, um agasalho,


uma poltrona, um livro, uma vontade vagabunda
de escrever. é inverno, húmido e frio, cor de cinza empastada
e rasa de água. meu amor, deixa-te estar aqui, ainda há
tempo, tempo antes do jantar e das notícias. tempo agora e depois.
aqui. deixa-te estar aqui, fica ainda aqui.


Vasco Graça Moura

Apple picking



Winslow Homer

eira do catavento | 3. setembro

agora o outono chega, nos seus plácidos
meneios pelas vinhas. um dos vizinhos passa
um cabaz de maçãs por sobre a vedação:
redondas, verdes, o seu perfume vai
dentro de quinze dias ser mais forte.

a noite cai mais cedo e apetece
guardar certos vermelhos da folhagem
e amarelos e castanhos nas ladeiras
de setembro. a rádio fala no tempo variável
que vem aí dentro de dias. talvez caia

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo
os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.
aproveita-se o outono no macio
enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.
devagar, dvagar. é mais doce no outono a tua pele,


Vasco Graça Moura

On the hill


Winslow Homer

eira do catavento | 2. junho

estás a olhar para mim. tens um chapéu de palha
de abas a acompanhar a curva do teu riso. pode ser
ou praia ou campo o sítio em que me encontras.
eu sei que é no jardim, que os cães agora
dormitam, que há mais rosas quase a abrir,

regadas de manhã, que olhaste as trepadeiras
e mudaste um hibisco, que estão num canto a pá,
o regador, um vaso já sem terra ontem comprado
(não, não vamos à feira logo à tarde)
e além sobe por fim a madressilva.

dão-te as argolas um ar aciganado, acentuando
a tua tez meridional por entre as sombras
leves que tens no rosto, enquanto ris
como a dizer de um tempo sem história,
feito das brisas do sossego, das claridades do verão.


Vasco Graça Moura

Peach blossoms



Winslow Homer

eira do catavento | 1. março

está um bela manhã, clara e fria,
há restos de geada na relva e notas
de amarelo-vivo nos limoeiros.
umas rosas, junto ao muro, resistiram ao inverno
e o sol brilha levemente enevoado.

o cachorro derrubou um vaso de buxo.
fica uma mancha de terra muito preta
nos degraus. salvar o buxo, reenvasá-lo,
tarefas da manhã com ralhos ao cachorro
que não percebe e continua a saltitar

na relva húmida à minha volta.
apito, digo-lhe, isto não se faz.
aponto-lhe o indicador e ele dá à cauda,
alegre e despreocupado. sabe
que há-de saltar atrás das borboletas.


Vasco Graça Moura

Morning glories



Winslow Homer

À luz da lua | 21



Rita & TJ
Thomas Hart Benton

8 de agosto de 2007

Death and Life


Gustav Klimt

Amigas

Chegámos tarde ao dia aprazado para tratar das nossas mortes. Tinhamos trabalhado tanto a ideia de preparar ao milímetro as nossas últimas vidas e a morte e a morte de cada uma que escolhemos um dia para nos sentar e trocar com juramento de sangue e votos de não sofrer, não cair e nos ajudarmos a morrer de repente.

Agora nada havia a fazer e era difícil estar assim perante a eternidade aprisionada numa capela barroca, sem podermos conversar e estabelecer os protocolos da partida. Agora nada havia a fazer senão dizer as sete últimas palavras e um guia de viagem para não te perderes no rio profundo que tinhas para percorrer. Trouxe os livros antigos só para o caso de ser ainda possível deixar-te debaixo do lençol de linho um guia de orientação para as coisas profundas, as orações em ponto de milho (copiadas de Clarice Lispector) e um copo de prata para as oferendas.
A noite, apesar de tudo, estava luminosa e embora o rio parecesse mais parado do que o costume, as vozes, sobretudo as vozes, afirmavam uma vida inteira para viver. Afinal, para elas, ainda havia tempo e as palavras serviam para afirmar uma linha do horizonte muito distante e curva, lugar de rios em estado de foz e peixes estranhos em rituais de acasalamento.
Durante anos e anos dividimos as vidas, infâncias partilhadas, juramentos solenes, partos difíceis, doenças e melhora, o crescimento dos míudos, os tempos das fugas. Nas nossas conversas havia sempre um lugar para a morte, uma cicatriz do tamanho de um vale, aumentada pela partida súbita dos amigos, dos parentes. No dia em que entre nós e a eternidade não sobrou mais nada marcámos então a data para nos ocuparmos da nossa própria morte. Diante da árvore dos milagres lembrámos as palavras das mãe quando dizia "a filha mais velha não pode casar para tomar conta dos outros" e as palavras da amiga "uma mulher deve casar ao menos uma vez na vida" e demos conta de ter cumprido todas as promessas: casar e mesmo assim cuidar dos outros, envelhecer de filhos e dar conta das tarefas do pão, da horta e dos tecidos.
Agora que a conversa à volta subia de tom e as pessoas mergulhavam fundo no esquecimento só para se mostrarem vivas, eu lembrava a nossa vida partilhada e o hábito de guardar segredos por ordem alfabética, praticado ao fim da tarde com alguma regularidade. Essa era uma forma de dar corda às pequenas palavras de mistério que nos alargavam a vida e fugir à pequena fala de boca a orelha espalhada por todas as velhas do bairro.
Estar ali de pé a sentir nas veias o fluxo das marés e a torrente de um rio sózinho a correr em leito próprio não era senão uma forma maior de me afastar. Cantar-te com palavras cheias de sílabas mortas não fazia parte do jogo nem do nosso pacto mais secreto.
O mundo passou a doer em cada esquina. Os relógios do tempo adiantaram-se e eu não sabia o que fazer dos livros antigos que tinha debaixo do braço para te ler para te ler como guia para os caminhos das profundezas que talvez tivesses que atravessar.
Nenhum destes livros continhas as palavras que eu procurava. Assim fiquei calada dentro daquela pequena eternidade. Pousei no chão sete rosas murchas com as sete palavras da salvação: sino, memória, flor, crianças, riso, dança, calor.
Saí apertando com força a pergunta:
Como foi que faltámos ao dia aprazado para tratar das nossas últimas vidas e da morte e da morte da cada uma?


texto de Ana Paula Tavares

The three ages of woman



Gustav Klimt

5 de agosto de 2007

À hora em que os cisnes cantam...

Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono...
Benevolência. Inconseqüência. Inexistência.

Paz dos que não têm fé, nem carinho, nem dono...
Todo o perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono...
Esmola que faz bem... — nem gestos, nem violência...

Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas
abstrações. Vão temor de saber. Lento, lento
volver de olhos, em torno, augurais e espectrais...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Ele? Tu? Sim? Não? Riso? Lamento?
— Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais...


Cecília Meireles

4 de agosto de 2007

1 ano

O hálito azul da tarde faz hoje 1 ano!
Estou contente, e neste dia, só há um poema que aqui faz sentido deixar...


As imagens quebradas

Uma última vez percorro a cidade no dia
em que começa a minha morte. Reconheço
estes lugares apesar da mudança e a sua
esquiva familiaridade roça-me as tolhidas
asas da memória. Aqui escrevi. Naquela

sombra imaginei. Entre uma e outra coisa,
vivi. O bastante para saber que toda a vida
em seu acidentado curso se salda por longo
reiterar de aproximações rumo à verdade, confusa
teia de retrocessos, falsas pistas, infrutíferas

buscas, constante e pertinaz correcção
de rotas através da bruma ou da luz
mais intensa. Sobre a rocha escaldante larguei
doloridamente a pele; adormeci no letargo
da crisálida; frágeis romperam-se-me

as asas antes do voo. As portas franqueadas
abriam para o labirinto e o descontínuo
das imagens. Escrevi de coisas inúteis, relatei
factos comezinhos, sobre cinzas e nada
discorri em favor de uma ordem pressentida.

O filho do homem apenas conhece a visão fragmentária
das imagens quebradas que o sol revela. Todo
o resto, como as raízes mais profundas, lhe é oculto.
Só o vento e a pedra e a árvore florescendo
de fronte importam. Só tu, meu Deus irónico,

em quem não creio, conhecerás talvez o tamanho
inteiro do frio fogo em que me consumo. A verdade
está próxima. Morrer é proventura alcançá-la.
Percorro a cidade, artérias de silêncio tumular,
pisando a áspera areia solta que o sol

legou após as chuvas de solstício. Uma
parede, algures, guarda-me a sombra antiga,
a brisa inerte dobra a melancolia dos girassóis
ao comprido da estirada tarde de Janeiro. Do zinco
doente desprendem-se murmúrios, vozes tutelares

que, num recesso ignoto, o tempo guardou avaro.
Ao longe um latir de cães estilhaça o sereno
espelho do horizonte em que trémulas casuarinas
perfilam a distância. Apenas legível, na parede
permanece inscrita uma sombra. Uma sombra

demora-se onde humidade, limos e musgo
obliteram já o riso original. Enquanto
dobram os girassóis, e a tarde com eles, falam-lhe
mansas as vozes. Assim, uma última vez, lento,
percorro a cidade procurando penosamente

as poucas palavras que me restam e o vazio ofegante
que há entre elas. Já nada espero. Tão-pouco
o que em mim se exprime é desespero. Saber
e amargura não querem coexistir. Quem tudo
perdeu, que mais poderá vencer? Caminho

pelos lugares queridos, sem tristeza, nem mágoa,
altas, condoídas árvores, lagos serenos escorrendo
de meus olhos, hálito azul da tarde que, por cair,
de sombras vai tranquilizando o horizonte. Só,
meu coração, bate contra a pedra e o silêncio.


Rui Knopfli


...ao escrever agora este poema e ao relê-lo, apercebo-me, o quanto estas palavras impregnaram alguns dos meus dias neste último ano...cá continuaremos...

A todos os que se aproximaram deste cantinho na tarde...I love being here with You


3 de agosto de 2007

Hyperballad

Wishing for eternal togetherness



Li Shuang

At the glistening kiosk



Li Shuang

Pensamento Primaveril

O medo mistura-se ao prazer
enquanto ela sorri ao pensar que vai ao seu encontro
A caminho do lago o orvalho da montanha refresca-lhe as mangas de seda
Quem se habituaria a estas coisas ilícitas?
Somente o receio de faltar ao juramento secreto
leva com passos cautelosos ao quiosque de perfumes de brocado
Espreita, procura nos ruídos do vento
esconde-te à espera do amor perfumado
Ao pé do muro branco uma flor brinca com a sua sombra
Sob as persianas vermelhas o brilho disfarçado da lua
Docemente
com um sopro, a lâmpada apaga-se


Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

1 de agosto de 2007

Clouds and Water



Li Shuang

Olhar tardio sobre o lago

De leste a oeste partem e chegam os barcos, combate de formigas
Bater de palmas, a dama mongol está embriagada
Do poente chegam rumores de canções
Uma nuvem solitária atravessa a sombra dum pagode
Vento de lótus na noite fresca, o céu é como água


Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

Aqui nesta praia | 36



Les Deux Baigneuses
William-Adolphe Bouguereau