26 de julho de 2008

Bem-vinda

Ocorre-me que vais chegar distinta
não exactamente mais linda
nem mais forte
nem mais dócil
nem mais cauta
somente que vais chegar distinta
como se esta temporada de não me veres
te tivesse surpreendido a ti também
talvez porque sabes
como te penso e te enumero

depois de tudo a nostalgia existe
ainda que não choremos nos corredores fantasmáticos
nem sobre as almofadas de candor
nem por baixo do céu opaco

eu nostalgio
tu nostalgias
e que me interessa que ele nostalgie

o teu rosto é vanguarda
talvez chegue primeiro
porque o pinto nas paredes
com traços invisíveis e seguros

não esqueças que o teu rosto
me olha como povo
sorri e enfurece-se e canta
como povo
e isso dá-te uma luz
inapagável

agora não tenho dúvidas
vais chegar distinta e com sinais
com novas
com profundidade
com franqueza

sei que vou querer-te sem perguntas
sei que vais querer-me sem respostas



Mario Benedetti

Susmita



Kate Lehman

7 de julho de 2008

mais longe

fora do tempo
é mais longe do que qualquer espelho

minha ilha
meu incêndio de pedra

sobre a corrente assassina
de me perder

cansa-me de água e de sol
inquieta-me

do segredo das sementes
e do chão tóxico

dos vulcões
em que me deitei

quando a noite me atormentava
de não chegares

quando a madrugada
me matava de partires



gil t. sousa
do blog falso lugar

5 de julho de 2008

Edge | Verse 2












Nicholas Hughes

Recorda

Recorda-me quando eu te abandonar
Quando me for sob a terra silente;
Quando achares a minha mão ausente,
E eu, querendo partir, já não ficar.

Quando já não me puderes contar
Planos dum futuro que nos não cabe,
Recorda-me somente; tu bem sabes
Que então será tarde para rezar.

Mas se me esqueceres entrementes
E depois recordares, não lamentes:
Pois se a corrupção te assombrar os dias

Com ideias que eu tinha na cabeça,
Melhor será que me esqueças e sorrias
Do que minha memória te entristeça.

Tradução de Margarida Vale de Gato



Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando eu não te tiver mais ao meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando mais não puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afecto que em mim viste,
- Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

Tradução de Manuel Bandeira
retirado do blog Para lá de Bagdade



Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you planned:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.



Christina Georgina Rossetti