30 de maio de 2007

Vénus ao espelho

se a vénus ao espelho fosse
uma oliveira a arder por dentro
com sua chama de óleo doce
e tudo em brasa desde o centro,

se o seu espelho acaso fosse
embaciado pelo alento
que algum cúpido em voo trouxe
entre desejo e atrevimento,

se o ar no quarto depois fosse
feito luz táctil do aposento
e se entranhasse a tomar posse
da nudez rósea no cinzento,

e se velásquez então fosse
pintar-lhe o ensimesmamento
eu te diria: misturou-se
ao próprio instinto o pensamento.

Vasco Graça Moura





Diego Velázquez



Vejo as duas vidas que tu olhas; e
das duas não sei qual escolher. Tiro-te
do espelho; e à minha frente és
o reflexo que imagino, num pedaço
de realidade. Mas se tento tocar-te,
é o vidro que me impede de passar
para onde estás, e de onde me chamas,
num eco de desejo.

Pudesse eu partir o espelho,
e ver em cada estilhaço os fragmentos
de vida em que nos encontrámos! Ou
colar ao vidro a minha boca, e encontrar
húmidos os teus lábios! Porém,
nada desvia a tua atenção; e
no rosto que olhas vês o rosto
que o vê, pensando em todos aqueles
que te hão-de ver.

Nuno Júdice

28 de maio de 2007

The tenderness



Sára Saudková

Fraga e sombra

A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.


Carlos Drummond de Andrade

A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos
de mármore e losango, onde as colunas
se deploram silentes, sem que as pombas
venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas
no vazio mais branco e na insolvência
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,
desperdiçando a terra, e já recuam
para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
é a vida um suspiro sem paixão.


Carlos Drummond de Andrade

25 de maio de 2007

L´Amour et Psyche







William-Adolphe Bouguereau

Tentei fugir da mancha mais escura

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.


David Mourão-Ferreira

Ilha

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias


David Mourão-Ferreira

Ler contra o silêncio | 3



La Lecture abandonnée
Félix Valloton

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!


Florbela Espanca

24 de maio de 2007

Flower in the sky



Li Shuang

Papoilas

estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas

o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro

aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me

qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos

coisa estranha

opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro

para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras


Ana Mafalda Leite

Real hapiness within reach



Li Shuang

Sun of the forbidden city



Li Shuang

O vermelho das acácias na paisagem

cai ao chão a mais íntima aurora

há-de vestir-me de cor rubra
a matéria que tinge o céu e me deslumbra

este assalto da aurora será meu enxoval meu dote de menina
agora que sei o mistério e continuo donzela
tu que pões o vermelho das acácias na paisagem
estranho amor te foi cobrindo amarga toranja
doce de papaia regressa
de cada vez
mais jovem
a semente
chama

arde em lábios audaciosos

neste acontecer saboroso
eles são afeitos
à incandescente terra a crescer um dom de mansidão

em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto
um rosário de contas pretas me escorre dos dedos
devagarinho para o chão



Ana Mafalda Leite

Looking over the cliff



Winslow Homer

Fisherman´s family


Winslow Homer

Where are the boats



Winslow Homer

23 de maio de 2007

Waiting for someone



Han Wu Shen

Sinto delicadamente o ressentimento

Sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu.

A distância que consentiste prolongar e transformar em esquecimento,
tecida de silêncio omisso, de tempo não pronunciado.

Assim estou nesta manhã, ausente e longe do centro,
na fronteira amena do coração,
e vejo pássaros de asas azuis que deixam cair as tuas últimas palavras
escritas, que te espalham à minha volta,
e olho para linhas de horizonte onde deverias surgir,
regressando de lugares onde
apenas uma sombra morna te denuncia.

Sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu,
mas não foi acaso encontrar-te antes,
nem circunstancial ou abstracto o nosso entendimento.

Há uma mensagem escondida e secreta
nesta manhã,
um tempo a vir, já escrito,
um mês próximo de remissão,
e um recomeço.



21 de maio de 2007

Profile of a young chinese woman



Han Wu Shen

fragmento

são asas de alvoroço ou são sinais?
são sombras agitadas na descida?
são palavras aladas junto ao cais?

são um rumor no vento? ou repetida
animação do instante nas mnhãs
quando ao passar da gente passa a vida

e alguêm espera olhando as horas vãs?


Vasco Graça Moura

A Noite



William-Adolphe Bouguereau

O Crepúsculo



William-Adolphe Bouguereau

O Dia



William-Adolphe Bouguereau

A Aurora



William-Adolphe Bouguereau

Tentações do Apocalipse

Não é de poesia que precisa o mundo.
Aliás, nunca precisou. Foi sempre
uma excrescência escandalosa que
se lhe dissesse como é infame a vida
que não vivamos para outrem nele.
E nunca, só de ser, disse a poesia
uma outra coisa, ainda quando finge
que de sobreviver se faz a vida.
O mundo precisa de morte. Não da morte
com que assassina diariamente quantos teimam
em dizer-lhe da grandeza de estar vivo.
Nem da morte que o mata pouco a pouco,
e de que todos se livram no enterro dos outros.
Mas sim da morte que o mate como um percevejo,
uma pulga, um piolho, uma barata, um rato.
Ou que a bomba venha para estas culpas,
se foi para isso que fizemos filhos.
Há que fazer voltar à massa primitiva
esta imundície. E que, na torpitude
de existir-se, ao menos possa haver
as alegrias ingénuas de todo o recomeço.
Que os sóis desabem. Que as estrelas morram.
Que tudo recomece desde quando a luz
não fora ainda separada às trevas
do espaço sem matéria. Nem havia um espírito
flanando ocioso sobre as águas quietas,
que pudesse mentir-se olhando a criação.
(O mais seguro, porém, é não recomeçar.)


Jorge de Sena

18 de maio de 2007

Ler contra o silêncio | 2



Young women reading
Valerie Ganz

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca

Rua do Quelhas

Homenagem a Florbela Espanca


Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágoa e a saudade
oh meu amor de longe quem me diz
Como é a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente
cintura com cintura, beijo a beijo
e gritá-lo, abraçado, a toda a gente

Morre-se devagar e de morrer
fica a cinza de um corpo no olhar
oh meu amor a noite se vier
é seara de nós ao pé do mar


António Lobo Antunes

17 de maio de 2007

Meme

Aceite o desafio lançado pelo blog O que é feito de si Mrs Pankhurst? , de Cristina Nobre Soares, aqui deixo o meu Meme*:


"Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera."

Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo



...e passo o desafio ao Insustentável



* – Um “meme” é um gen ou gene cultural que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os “memes” podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente se propaga pela web, usualmente por meio de blogues. O neologismo “memes” foi criado por Richard Dawkins dada a sua semelhança fonética com o termo “genes”.

16 de maio de 2007

Aqui nesta praia | 31



Aprés le bain
William-Adolphe Bouguereau

alba em memória de sophia

é quando a luz safira e cor de rosa
a humedecer as nuvens, matinal,
alastra pelas praias, vagarosa,
e nas dunas rendilha o seu metal,

é quando algas e mar, corais, espuma
e sombras transparentes vêm na brisa,
é quando em nós a lira desarruma
a angústia e o silêncio e a imprecisa

densidade do tempo e se combina
do ouvido à alma na medida certa
uma geometria cristalina,
é quando um crespo deus pagão desperta

a dar o alento próprio à maresia
e canta ao encontrar-se com sophia.


Vasco Graça Moura

Ler contra o silêncio | 1



Lesende Mädchen
Franz Eybl

Ler contra o silêncio

Inicio hoje uma área temática nova, Ler contra o silêncio.

...uma ideia antiga, impulsionada pela inspiração de um livro recentemente oferecido, Mulheres que lêem são perigosas.

15 de maio de 2007

La Vie



Marc Chagall

Ninguêm meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


Sebastião Alba

14 de maio de 2007

Le songe


Marc Chagall

Estranho é o sono que não te devolve

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.


Daniel Faria

11 de maio de 2007

Aqui nesta praia | 30



Daughters of the Sea
Winslow Homer

After Vermeer - Three Women


Paul Kilsby



Lady Writing a Letter with Her Maid
e Girl Interrupted at Her Music
Johannes Vermeer

Muitas tardes, o poema resume-se à cinza

Muitas tardes, o poema
resume-se à cinza, ao que resta
de algo que se consome em lentidão
algo que ainda o vento
não levou consigo.
O esquecimento não acontece por acaso.
Os olhos demoram-se nas imagens
empoeiradas, num ou noutro
detalhe mais persistente em nitidez
para logo desaparecerem como um
fumo irrequieto à minima brisa.
Sorrir é tão natural como cerrar os olhos,
depende da imagem que teima diante de
nós, nessa procura inconsciente
de todo o pensamento,
e que força estala cá dentro
nesse episódio da memória.
Escrever é poder saltar de passado
em passado, e fingir que nada
nos pertence, que somos intocáveis,
que o nosso nome é outro afinal
e o rosto, variados reflexos do
que a luz pode dele fazer.


Fernando M. Dinis
do blog FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO

10 de maio de 2007

After Vermeer - Two Women


Paul Kilsby


A Maid Asleep e Lady with Her Maidservant Holding a Letter
Johannes Vermeer


Mesmo que as palavras faltem

Mesmo que as palavras faltem
deixa que o tempo suspenda os gestos
e possamos ambos assistir à chuva fria
no promontório secreto da cidade.
Mesmo que os livros decepcionem
segura a história que a imaginação
criou na simples procura, quando
tudo parecia pedaço de terra nova.
Mesmo que nada te diga já
decora o meu nome e viaja com ele
onde nunca os lábios pousarão.


Fernando M. Dinis
do blog FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO

9 de maio de 2007

After Vermeer - The Cone


Paul Kilsby


Woman in Blue Reading a Letter
Johannes Vermeer

Soneto de julho

É muito tarde para não te amar.
Tudo o que ouço é o sopro do teu nome.
O que sinto é teu corpo, que consome
— presente, ausente — o meu corpo. Luar

em que me abraso, morro: teu olhar
ofuscando memórias, onde some
um mundo, e outro se ergue. Sede, fome
e esperança. Ah, para não te amar

é tão tarde que tudo é já distância,
que só respiro este luar que me arde,
este sopro sem praias do teu nome,

esta pedra em que pulsa e medra a ânsia
e esta aura, enfim, em que me envolve (é tarde!)
o que és — presente, ausente — e me consome.


Ruy Espinheira Filho

After Vermeer - The Balance


Paul Kilsby


Woman Holding a Balance
Johannes Vermeer

A Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.


Clarice Lispector

8 de maio de 2007

After Vermeer - The Curtain


Paul Kilsby


Study of a Young Woman
Johannes Vermeer

Quando fores velha

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


William Butler Yeats
Tradução de José Agostinho Baptista

After Vermeer - The Cylinder


Paul Kilsby


Girl with a Pearl Earring
Johannes Vermeer

De cada amigo sinto falta das palavras

De cada amigo sinto falta das palavras;
quem sabe sinto ainda mais falta
do som de cada amigo.
Desejaria agora mais carne na memória,
o gosto dos ossos nos meus dedos.
Desejaria agora vencer a nostalgia
que aperfeiçoa tudo, arrasa causas
e evidencia o êxito das perdidas.
Desejaria agora ter-me equivocado.
Por ter aprendido
a deter aquelas coisas que entretanto perdi.


Daniel Martínez i Ten
Tradução de Rui Miguel Rocha

7 de maio de 2007

After Vermeer - The Pitcher


Paul Kilsby


Young Woman with a Water Jug
Johannes Vermeer

Não Basta

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.


Alberto Caeiro

After Vermeer - The Maidservant


Paul Kilsby


The Maidservant
Johannes Vermeer