26 de novembro de 2007

A morte o amor a vida

Julguei que podia quebrar a profundeza a imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido pelo amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue

Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula

Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros tempos

Os campos então lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estrelas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a sua natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.



Paul Eluard

24 de novembro de 2007

As pequenas descobertas

sabias que esta noite eu desejei
que a vida, seguindo um simples capricho,
passasse a desvendar todos os atalhos,
e nos conseguisse encontrar?

para trazer à minha volta,
o teu sorriso de pólen e a falsa
excitação do abismo sob os pés.

que todos os cabelos ao luar revoltos,
se transformassem em borlas de algas tenras,
passamanaria entre nossos dedos.

foi quando ouvi o choro dos ciprestes,
e abrindo os olhos,
eras novelo perto do meu rosto,
espelho opaco mas sensível

às minhas mãos em cunha,
buscando nos teus ângulos,
a presença do sopro que me anima:
a tua luminosa quietude.



Carlos Henrique Leiros
do Almofariz

Dawn



Keith Carter

A perder de vista

NO SENTIDO DO MEU CORPO



Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos


O amor é o homem inacabado.



Paul Eluard

20 de novembro de 2007

Haja o que houver

Madredeus

Vem sentar-te comigo Lídia

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos com o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levardes o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.



Ricardo Reis

4 de novembro de 2007

Your choice



Manuel Librodo

Amor

As árvores do outono sobrepõem-se sob o alpendre esculpido
inumeráveis núvens floridas escoltam o sapo de jade
alguns fios de perfume nocturno atravessam a cortina bordada
ela espera escondida
a porta meio aberta
meio fechada




Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

Dyed



Manuel Librodo

Tal e qual

A cerca de bambus, tinidos de jade
Na janela folhas de bananeira, reflexos de seda verde
por entre os risos o som do pipa
em cima da árvore dança uma lua pálida
o vento perfuma-se na opulência das flores
casa duma dama elegante
uma adorável empregada jovem filtra o chá




Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

3 de novembro de 2007

Bloom



Manuel Librodo

Improviso ao lado de uma ameixieira

À chuva as flores abrem
o viajante chega do outro lado das núvens
embora lhe deva um poema inacabado
reencontramo-nos com alegria
declive sinuoso na direcção do quiosque o jade derrete-se
pequena árvore polvilhada de borboletas
na espuma de neve e de pétalas
afundam-se as nossas alpergatas de pano escuro




["um poema inacabado": o poeta tem uma "dívida poética" para com um amigo que lhe dedicara um poema ao qual ainda não respondeu. O tema do encontro com a ameixieira em flor na paisagem nevada é uma alegoria da procura da inspiração poética.
"o jade": a neve]




Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

1 de novembro de 2007

Dyes



Manuel Librodo

Colours



Manuel Librodo

Escrito como o vi

Uma brisa ligeira agita as folhas do salgueiro
os lótus de flores ébrias embebem-se de poente
nos montes distantes pálidas núvens acariciam o céu ainda claro
a rapariga dos pós vermelhos tem seguramente doze,treze anos
docemente, ela recolhe uma canoa carregada de nenúfares



Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

Aqui nesta praia | 37



East Hampton, Long Island
Winslow Homer