4 de novembro de 2008

Espáduas brancas palpitantes...


Succulent


Calla Lily



Magnolia Blossom




Jeffrey Conley

Auto retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.



Natália Correia

Rose and Driftwood



Ansel Adams

24 de outubro de 2008

Tenho-te comigo como uma erva selvagem

Tenho comigo o frio gelado e silencioso da noite.

Há uma ténue linha de terra, quase praia, junto ao mar
que filtra um pouco do cinzento denso do nevoeiro,
e a tua sombra no alpendre, à minha porta, fica agora
mais clara e visível,
mais perto da dor intensa, do amor refeito e da despedida.
Esta partida que é tua, tão ausente,
tão perto da espera que aguarda o passar dos meses,
o fim do Inverno.

Mas tenho-te comigo como uma erva selvagem e forte,
como algo que resiste.


alma

Chesil beach



Birt Wisle

Fragmento de...

Na praia de Chesil de Ian McEwan

"(...) Tudo o que desejava, a única coisa em que conseguia pensar era em si mesmo e em Florence deitados nús na cama do quarto contíguo, finalmento confrontados com essa experiência atemorizadora que parecia tão distante da vida quotidiana como uma visão de êxtase religioso, ou até a própria morte.(...)"

19 de setembro de 2008

Windflowers



John William Waterhouse

Um aniversário

Meu coração é um pássaro cantante
Cujo ninho é um rebento orvalhado;
Meu coração é uma macieira
Vergando o tronco de frutos pesado;
Meu coração é um búzio irisado
Vogando na corrente com langor;
Meu coração mais que tudo se alegra
Porque a meus braços chegou meu amor.

Dai-me um dossel tingido de cor roxa;
De seda debruada de mil folhos;
Bordai nele romãs, pombos alados,
Pavões com caudas de mais de cem olhos;
Ornai-o de uvas, de rubis e prata,
Folhas douradas, pomares em flor;
Porque hoje é dia que nasce m´nha vida,
Hoje a meus braços chegou meu amor.



Christina Rossetti
tradução de Margarida Vale de Gato

4 de agosto de 2008

2 anos



O hálito azul da tarde faz hoje 2 anos e... vai continuando...seguindo o rastro...



Os primeiros encontros


Cada momento passado juntos
Era uma celebração, uma Epifania
Nós os dois sozinhos no mundo,
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.

Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretensiosa era a bênção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto dormes,
- Deus do céu! – tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
O seu novo sentido: significa “rei”.

Simples objectos transfigurados,
Tudo – a bacia, o jarro - , tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.

Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas por milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.

Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.



poema de Arsenii Tarkovskii
tradução de Paulo da Costa Domingos
pintura de Jennifer Anderson

26 de julho de 2008

Bem-vinda

Ocorre-me que vais chegar distinta
não exactamente mais linda
nem mais forte
nem mais dócil
nem mais cauta
somente que vais chegar distinta
como se esta temporada de não me veres
te tivesse surpreendido a ti também
talvez porque sabes
como te penso e te enumero

depois de tudo a nostalgia existe
ainda que não choremos nos corredores fantasmáticos
nem sobre as almofadas de candor
nem por baixo do céu opaco

eu nostalgio
tu nostalgias
e que me interessa que ele nostalgie

o teu rosto é vanguarda
talvez chegue primeiro
porque o pinto nas paredes
com traços invisíveis e seguros

não esqueças que o teu rosto
me olha como povo
sorri e enfurece-se e canta
como povo
e isso dá-te uma luz
inapagável

agora não tenho dúvidas
vais chegar distinta e com sinais
com novas
com profundidade
com franqueza

sei que vou querer-te sem perguntas
sei que vais querer-me sem respostas



Mario Benedetti

Susmita



Kate Lehman

7 de julho de 2008

mais longe

fora do tempo
é mais longe do que qualquer espelho

minha ilha
meu incêndio de pedra

sobre a corrente assassina
de me perder

cansa-me de água e de sol
inquieta-me

do segredo das sementes
e do chão tóxico

dos vulcões
em que me deitei

quando a noite me atormentava
de não chegares

quando a madrugada
me matava de partires



gil t. sousa
do blog falso lugar

5 de julho de 2008

Edge | Verse 2












Nicholas Hughes

Recorda

Recorda-me quando eu te abandonar
Quando me for sob a terra silente;
Quando achares a minha mão ausente,
E eu, querendo partir, já não ficar.

Quando já não me puderes contar
Planos dum futuro que nos não cabe,
Recorda-me somente; tu bem sabes
Que então será tarde para rezar.

Mas se me esqueceres entrementes
E depois recordares, não lamentes:
Pois se a corrupção te assombrar os dias

Com ideias que eu tinha na cabeça,
Melhor será que me esqueças e sorrias
Do que minha memória te entristeça.

Tradução de Margarida Vale de Gato



Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando eu não te tiver mais ao meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando mais não puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afecto que em mim viste,
- Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

Tradução de Manuel Bandeira
retirado do blog Para lá de Bagdade



Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you planned:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.



Christina Georgina Rossetti

26 de junho de 2008

Cassie´s hand




Allan Jenkins

Não tenhas medo do amor

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.




Maria do Rosário Pedreira

Marga eyelashes




Allan Jenkins

Nahoko´s lips




Allan Jenkins

Diz-me o teu nome

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.




Maria do Rosário Pedreira

Mona




Allan Jenkins

Daria




Allan Jenkins

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa


que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me


a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.




Maria do Rosário Pedreira

Elisabeth




Allan Jenkins

25 de junho de 2008

Faceless









Manuel Librodo

Há crianças nas árvores que absorvem a noite

Há crianças nas árvores que absorvem a noite,
enquanto as estrelas caiem frias no chão,
e a luz se esvai pela terra em caminhos húmidos.

As crianças que levam os fins dos dias, e correm
ensurdecedoras e felizes,
prenunciam a noite no sibilar das folhas,
e encerram as janelas nas paredes,
e nos quartos, verdes e ásperos,
um cheiro de éter escorre.

Há crianças nas árvores que absorvem a luz pálida da manhã próxima,
um dia já fora do nosso alcance.


alma

24 de junho de 2008

Domingo no mundo | 20



Valencia, 1952
Elliott Erwitt

Quando te dói a alma

Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,

quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,

quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,

nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor.



Fernanda de Castro
retirado do blog fernanda de castro

23 de junho de 2008

(Floating)




Christina Sealy

Acordo com o medo do frio que a tua mão me leva ao respirar

Acordo com o medo do frio que a tua mão me leva ao respirar.

No meu ventre aberto as tuas asas batem furiosas e o meu peito pára.
Cruzo as mãos sobre as águas salgadas onde os bicos dos pássaros mergulham,
agudos e ácidos, levando-me nas dores que já não são minhas.
Sopram-me rasgadamente pelo ar cinza irrespirável,
e não há tréguas, nem perdão.
Existe sim um fim súbito, recusado e prolongado,
e a alma escurecida e culpada, sobrevive.


alma

À luz da lua | 24



The newborn
Georges de la Tour

21 de junho de 2008

(Wendy)



Christina Sealey

meu amor, meu quente marulhar

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,
meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar
percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,
e és para mim toda a realidade nesse instante.
há roupas, sim. roupas que vais vestindo, algum creme que pões,
uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora
e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.



Vasco Graça Moura

17 de junho de 2008

O tempo que o sono come

O verde gelou, e as almas perdem-se rasteiras, sonâmbulas.

Tudo agora tão branco e esquelético,
e um cheiro a incenso e alfazema,
como se estivessemos guardados, desde sempre, numa gaveta.

A madeira range quando pensamos respirar,
como um aviso, uma ameaça velada,
e há um choro tardio que fica para trás...
uma ladaínha breve a marcar o tempo que o sono come.


alma

15 de abril de 2008

Ler contra o silêncio | 15



La Liseuse
Jean Honoré Fragonard

canto contra este silêncio

canto contra este silêncio
que é da minha solidão
e o meu canto à noite vence-o
no bater do coração
canto contra este silêncio

e a cantar ando na lua
percorro a terra em segundos,
junto a minha boca à tua,
conheço mundos e mundos,
e a cantar ando na lua

se me calo, volta a treva
e essa tristeza tamanha
de quem tão alto se eleva
e tão baixo se despenha,
se me calo, volta a treva

melodias leva o sonho
como o vento pela barra
quando adormeço e me ponho
a sonhar junto à guitarra
melodias traz o sonho

canto contra este silêncio
que é da minha solidão
e o meu canto à noite vence-o
no bater do coração
canto contra este silêncio



Vasco Graça Moura

6 de março de 2008

Reflection



Jennifer Anderson

england [in a graceful manner]

partiste, em dia que vai longe, e a metade
do coração que deixaste comigo,
emudeceu, ao se criar um visgo,
em cima da fissura antiga.

deu-se, afinal, como se repetisse
a mística de quem erra,
o meu exílio, aquela sonolência
eterna e quase indivisível.

que é estar sozinho,
com o oceano, às vezes longo muro,
e outras como abismo.



Carlos Henrique Leiros
do blog Almofariz

Conscience



Jennifer Anderson

Breve Apontamento sobre Viagens

Estarei no lado escuro da noite, o lado
onde os sonhos metalizam e oxidam de
espera, de esquecimento. Serei breve
nos sons, e no olhar, como uma criança
de rua, dir-te-ei porque choro.

Estarei no lado comum dos que resistem. As fendas
douradas do tempo iluminarão os cantos
esconsos onde me esconda, e a todos aqueles
que se sentarem em meu redor e chorarem
comigo, beijá-los-ei como irmãos derradeiros.




Fernando M. Dinis
do blog FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO

26 de fevereiro de 2008

O beijo



Edvard Munch

kopenhagen script

1
as árvores furiosamente nuas
largam os seus pássaros negros
num outro mês qualquer
e as estradas separam as folhas
rolam as pedras cansadas de sol
para que o sul seja um lugar
onde a água espera
e o destino se esconde
em forma de ilha

que mão amputar
se assim nos pedem o frio?


2
são tão largas as horas
que se consegue ver
a solidão dum comboio vermelho
a raspar a noite
como homens à procura de uma porta
definhando gloriosamente

nas suas estações de
desespero


3
pelas gárgulas das catedrais
escoam-se noites antigas
que homens pacientemente sábios
recolhem letra a letra

a neve, tão mansa,
guarda-lhes a sombra e os passos
que numa janela alta e distante
um outro homem há-de ler


4
às vezes os navios doem
como ópio num pulmão derrotado

ou como quando tu ficas
no impossível meridiano da ausência
e eu te aceno de um silêncio
que é quase a loucura dos pássaros



gil t. sousa
do blog #poesia

havia o vento frio e o som que fazia...


Stob Dubh, Glen Etive, Glencoe



Reflected sun, Grobsness, Shetland



Walls near Ulpha, Cumbria



Barbary Castle clump, Spring





Fay Godwin

Como viver. o que fazer

Ontem à tardinha a lua nasceu sobre esta rocha
Impura sobre um mundo inexpurgado.
O homem e seu companheiro pararam
Para descansar perante a heróica altura.

Friamente o vento caiu sobre eles
Em muitas majestades de som:
Eles que tinham deixado o sol de chama caprichosa
Em busca de um sol de fogo mais intenso.

Em vez disso havia esta rocha tufada
Elevando-se massivamente alta e nua
Para lá de todas as árvores, os cumes atirados
Como braços gigantes por entre as nuvens.

Não havia nem voz nem imagem cristada,
Nenhuma corista, nem padre. Havia
Apenas a grandiosa altura da rocha
E os dois parados de pé a descansar.

Havia o vento frio e o som
Que fazia, longe do esterco da terra
Que tinham deixado, som heróico
Alegre e jubiloso e seguro.




Wallace Stevens
traduzido por Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos

16 de fevereiro de 2008

Encosta-te a mim





...encosta-te a mim...tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo...e o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo...

Quero adormecer!


Jorge Palma

14 de fevereiro de 2008

The bride



Gustav Klimt

Sleeping woman



Man Ray

The virgin



Gustav Klimt

A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.



Alexandre O´Neill

6 de fevereiro de 2008

É com esse que eu vou

Elis Regina

Palavras

Machados,
depois do seu golpe a madeira ressoa,
e os ecos!
Ecos que partem
do centro, semelhantes a cavalos.

A seiva
jorra como lágrimas, como
água capaz de lutar
para refazer o seu espelho
sobre uma rocha

que cai e se transforma,
uma branca caveira
consumida pelas ervas daninhas.
Anos depois
encontro-as na estrada...

Palavras secas e sem cavaleiro,
infatigável ruído de cascos.
Enquanto
do mais fundo do lago as imóveis estrelas
regem a vida.



Sylvia Plath
traduzida por Maria de Lourdes Guimarães

O que me importa

Marisa Monte

Pela água

Um lago negro, um barco negro, duas pessoas negras em papel recortado.
Para onde vão as árvores negras que bebem aqui?
As suas sombras devem cobrir o Canadá.

Das flores aquáticas sai filtrada uma luz ténue.
As suas folhas não querem que nos apressemos:
São circulares e sem relevo, cheias de conselhos obscuros.

Mundos frios agitam-se com os remos.
O espírito da escuridão está em nós, está nos peixes.
Um ramo submerso ergue uma mão pálida em despedida;

as estrelas abrem-se entre os lírios.
Não ficas cego com a mudez de tais sereias?
Este é o silêncio das almas já perturbadas.



Sylvia Plath
traduzida por Maria de Lourdes Guimarães

Vem (além de toda a solidão)

Madredeus

9 de janeiro de 2008

Mundo



World #23
Ruud van Empel

O jardim do solar

As fontes estão secas e as rosas acabaram.
Incenso da morte. O teu dia aproxima-se.
As pêras engordam como pequenos budas.
Uma névoa azul prolonga o lago.

Moves-te atravês da era dos peixes,
dos presumidos séculos do porco...
A cabeça, os dedos dos pés e das mãos
saem nítidos da sombra. A História

alimenta estas caneluras quebradas,
estas coroas de acantos,
e o corvo vem arranjar as suas vestes.
Tu herdas a urze branca, uma asa de abelha.

Dois suicidas, os lobos da família,
horas de escuridão. Algumas estrelas isoladas
já iluminam os céus.
A aranha na sua própria teia

atravessa o lago. Os vermes
abandonam as suas casas habituais.
As pequenas aves convergem, convergem
com as suas dádivas para um difícil nascimento.




Sylvia Plath
traduzida por Maria de Lourdes Guimarães