29 de setembro de 2007

Diário de praia | 1

Ergue-se em vento, sol e maresia,
o imperfeito caule da loucura

na pura exactidão deste silêncio.



David Mourão-Ferreira

28 de setembro de 2007

The water´s edge



ulluwatu




etretat


quadrant




tanah lot



Sally Gall

Quando, no nome do mar

Quando digo o nome do mar não é do mar
que digo o nome, mas de tudo o que
antes e para lá do mar ficou
em sobressalto nos perigos da sua travessia.

Aprendi isso em lugares raros,
como o último silêncio, a última gota
de água ou de mel.



Francisco José Viegas

25 de setembro de 2007

Hold still




David Fonseca

A secreta viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada ...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos , o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa...alheio aos meus sentidos.
- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!



David Mourão-Ferreira

Kissing the tears away


Jan Saudek

Life



Jan Saudek

23 de setembro de 2007

The family



Jan Saudek

Três Mulheres, poema a três vozes (VII)

PRIMEIRA VOZ:
A madrugada resplandece no ulmeiro grande junto à casa.
As andorinhas estão de volta. Soltam gritos como foguetes a estoirar.
Ouço o passar das horas
A crescer e a morrer nas cercas. Ouço o mugir das vacas.
As cores tingem-se de plenitude, e a palha húmida
Fumega ao sol.
Os narcisos abrem faces brancas no pomar.

Estou calma. Estou calma.
Estas são as cores claras e alegres do quarto das crianças,
Os patinhos que falam, os cordeirinhos risonhos.
Voltei a ser simples. Acredito em milagres.
Não acredito nessas terríveis crianças
Que me atormentam os sonhos com os seus olhos em branco, as suas mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Meditarei sobre a normalidade.
Meditarei sobre o meu filhinho.
Não anda. Não diz ainda uma palavra.
Está ainda enfaixado de branco.
Mas é rosado e perfeito. E sorri tão frequentemente.
Decorei o seu quarto com grandes rosas,
Pintei coraçãozinhos por toda a parte.

Não quero que ele seja excepcional.
É a excepção que interessa ao demónio.
É a excepção que causa os grandes tormentos
Ou que pousa no deserto e faz sofrer o coração da mãe.
Quero que ele seja vulgar,
Que me ame como eu o amo,
E que case com o que quiser e onde o desejar.


Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

17 de setembro de 2007

em frente, a janela aberta




Jill Merriam

És como a janela da manhã

És como a janela da manhã
Como os vidros embaciados
Como o calor dos lençóis
Como o pão mal torrado
Para não me ir em jejum


Como o olhar cansado que me deitas
Assim estendida do teu cansaço sobre o meu
E vou-me certamente
Que te deixo em frente a janela aberta


E te fico espetado na carne



Manuel Cintra

escorro de ti para as ruas



Jill Merriam

16 de setembro de 2007

Levas-me inteiro

Levas-me inteiro
Mais longe nos tecidos
Algures a germinar
Um ovo
Em estado de promessa.


Choro, talvez
Chore ainda mais ainda mais talvez


Lavas-me, escorro
De ti para as ruas ainda mais de ti


Seria simples imaginar
Uma das tuas mãos
Com os ossos da minha.
A outra, a carne.


Mas eu não gosto de coisas simples.



Manuel Cintra

e ela ardeu



Jill Merriam

Dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo

Dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo
Escancarou-lhe os olhos puxou-lhe fogo
Cerziu-se-lhe no peito puxou-lhe fogo
Tirou-lhe pó de cima puxou-lhe fogo
Sentiu-se tão pesado puxou-lhe fogo
Cobriu-a de ar; destapou-lhe a carne; mordeu.

Era fim de tarde era depressa era comprido
Verteu palavras tenras até já não ter voz
Chorou, soletrou-lhe o corpo membro a membro
E foi no soalho a solidão de a desventrar
Tremeu tremeu puxou-lhe fogo

E ela ardeu


Manuel Cintra

12 de setembro de 2007

Por momentos, a luz sitiou o teu corpo

Por momentos, a luz sitiou o teu corpo. Era manhã.
Eu criminoso olhava-te fingindo-me adormecido.
Ousei ainda pensar que te amava, e que os meus dedos
não eram só os meus dedos no teu cabelo.
Eram vozes altas e ruidosas trepidando em paredes despidas
animais acossados pelo incêndio surpreso, ou ainda
e simplesmente
todo eu num gesto indefinido de sabedoria, pronto
a errar.
Era manhã. E a luz incidia o teu nome dentro da minha
própria cabeça. Ousei ainda nomear objectos, martirizar
a linguística até estar inapto a chamar-te, a procurar-te,
até não te saber dizer.
Apropriar-me da ruína imensa de te perder, e fazer dessa dor
uma simples canção de choro e cegueira.
Por momentos era manhã. Ou o teu corpo a minha luz sitiada.


Fernando M. Dinis
do blog FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO


Celebrando o seu regresso à blogosfera.

Gray Dawn


Robert & Shana ParkeHarrison

Root Wall



Robert & Shana ParkeHarrison

Retrato

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.


Luís Miguel Nava

Ler contra o silêncio | 12



Lesendes maedchen
Gustav Adolph Henning

6 de setembro de 2007

Funeral blues

Blues Fúnebres

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.


Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
retirado do Insónia



Funeral blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.



Blues Fúnebre

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.


Traduzido por João Luís Barreto Guimarães
retirado do seu blog Poesia & LDA.



W. H. Auden

4 de setembro de 2007

Os Sinais

I
Olhar de frente o Sol Assim se aprendem
as letras iniciais da Solidão


XI
Avermelha-te ó pálpebra da noite
para saber se ainda estarei vivo


XIII
Porque te vou erguendo ó torre de papel
se cada vez comigo a sós menos me entendo



poemas de David Mourão-Ferreira
pinturas de Xue Jiye