23 de dezembro de 2010

por ora, apenas os ramos batem nos vidros da janela

por ora
apenas os ramos batem nos vidros da janela.

é tarde nesta véspera de natal,
a noite adensa-se,
o mundo recolhe-se como pode
e os sons ensurdecem na terra fria,
mas a promessa da tua vinda é certa,
a minha memória é verdadeira
e isso apenas me basta.

tudo me diz que é tarde nesta véspera de Natal,
e por ora apenas os ramos batem nos vidros da janela.

neste tempo liminar, esgota-se o rasto do dia que acabou,
a luz escorre pelas pedras velhas do caminho
e não te oiço ainda nesse rio por onde vens,
mas o meu coração contrai-se,
eu espero-te, tanto,
e isso basta-me!

é noite de natal,
os ramos cantam nos vidros da janela
és tu?
só amor, só amar,

isso basta-me


alma

9 de novembro de 2010

Trust
















Alyssa Monks

Grito pelo silêncio que preciso

Grito pelo silêncio que preciso,
pelas feridas abertas no escuro
e pelos dias que não passei contigo.

Grito por precisar de ti em silêncio.


alma

Scream
















Alyssa Monks

Poema simples sobre o silêncio

{do silêncio}. do sinal de fogo.
citar-te, escrever-te, transcrever-te, conjugar-te, oralizar-te
na orla do teu tronco demasiado extenso
para a curva do vento órfão de vontades.
{do silêncio}. grotesco. do sinal de fogo. literatura.
comer-te. beber-te com rigor moral, como consta
do guião de contra-indicações. infra.
{do silêncio}. ler-te. do sinal de fogo. contar-te
uma história verídica num outro contexto.
incomensurável. definitivamente provisório. belo.
{do silêncio}. quadriculado, vândalo. do sinal de fogo.
do ruído preceptivo. do processo de esverdeamento
do corpo com saudade. da cápsula de tempo.
{do silêncio}. um acto. do homem que se debruça
sobre cada órbita. um gesto. do mundo digestivo. instintivo.
somos um acto mas não um gesto. mera raiz da voz oca.
e numa linha recta aberta refundimos como quem
se ouve a si mesmo. do silêncio. do sinal de fogo.


Sylvia Beirute
Uma Casa em Beirute

26 de outubro de 2010

Still Life














Alissa Monks

tão pouca luz no quarto

entra tão pouca luz no quarto,
o ocre antigo das paredes desliza pelo chão
e despe-se nas minhas pernas,

não sei se o sol nasce ou morre,
no meu corpo indecifrável
o mundo parte devagar

e os sons para trás acomodam-se no meu ouvido
como finos vapores húmidos,
sem dia, sem noite, apenas as horas ficam,

e o meu peito adormece.

1 de outubro de 2010

12 de agosto de 2010

Crónica da Rapariga à Chuva

"Há bocadinho fui espreitar à janela e estava uma rapariga lá em baixo, à chuva. Isto às onze da manhã, a rua deserta e ela imóvel diante da agência de viagens, sem gabardina sequer, à chuva. Cabelos curtos, sapatos de ténis, os braços ao comprido do corpo, sozinha como uma estátua. Não volto à janela porque não quero encontrá-la, parece acusar-me de uma falta que desconheço, afigura-se-me um remorso vivo. À chuva. Não acaba, este inverno, esta solidão magoada, desconfortável. (...)"


António Lobo Antunes
http://aeiou.visao.pt/cronica-da-rapariga-a-chuva=f568316

6 de agosto de 2010

Canção para Leonard Cohen

enquanto nos faltarem fotografias
o futuro estará à deriva.
pero si. yes. la ciudad. a cidade.
a cidade que assinala a urgência no meu
vestido comprido e justo, saída do banco
com o dinheiro negro. the money.
money likes rain. chove.
é insuficiente dizer que chove.
é como dizer dinheiro. ou love. (love não
quer dizer amor). d'accord, got it, há
máximos e mínimos.
concepções copernicianas do espaço.
leonards cohens que espiam atrás de
canções bifurcadas. gerações diferentes.
a realidade não dá conta do recado
because it depends on, you know, pois
depende do expressável. representável.
não basta dizer «tudo tem uma duração».
é preciso dizer «tudo é uma duração».
pero si, chica. la ciudad! a cidade. sim.
mas cala-te um pouco. a cidade
onde agora faz sol. sabe: o sol só é
auto-expressável porque é cópia de si mesmo.
todos os dias copia a fórmula recém-passada
de aplanar nos rostos que vão
demolindo a arte de acordar. wake. up.
e nada resulta para mim.
e nem a metáfora é analgésico.
talvez seja a frequência do subterrâneo
desta cidade de vídeo e respeito
onde cada medo seu espreita atrás de um outro
e um tédio urbano
me surrealiza o dom dos olhos.


Sylvia Beirute
do blog Uma Casa em Beirute

First...we take Manhattan




Leonard Cohen

5 de agosto de 2010

Cinge-se a vida ao diâmetro do pescoço

cinge-se a vida ao diâmetro do pescoço,
nas minhas mãos tenho os teus ombros,
envoltos em pele, inesperados,
nas tuas costas o mundo silencia
e trago-te à vida,

as minhas mãos são um berço
de intenções assimétricas e perfeitas,
e quando os segundos se adensam no perímetro
desconcertante do teu olhar, o instinto demora-me,
como duas ilhas os meus joelhos nascem e
afastam-se desafiando o suor frio da solidão,
desalinhando os braços num rasto de palavras desacordadas,


cinge-se a vida ao diâmetro do pescoço,
mas sobra-nos espaço,
sobra-nos amor...



alma

Touch the hand of love



Blossom Dearie




Renee Fleming/Chris Thile
Yo-Yo Ma, Edgar Meyer, Chris Thile, Nicolas Cords/Jonathan Gandelsman

Study of Kelsie I & II




Lucong

diz-me

diz-me um segredo
qualquer coisa inacessível
dessa tua alma

alguma coisa
que eu possa ainda fingir
que não sei


gil t. sousa
no blog exercícios de esquecimento

4 de agosto de 2010

Someone to watch over me

Blossom Deary

4 anos...

4 anos...nesta ilha por vezes habitada!







Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.



poema de José Saramago
pintura "Sonidos del mar" de Antonio Carzola

3 de agosto de 2010

Praia e dunas...









Antonio Cazorla

Eu luminoso não sou

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.


José Saramago

Blue Jeans





Antonio Cazorla

do teu nome

sobra de todo o silêncio
o raro acorde
do teu nome

a que solidão altíssima
me entregas
quando te deixas morrer assim
no abraço faminto
do tempo?


gil t. sousa

30 de julho de 2010

Domingo no mundo | 21



Marilyn Monroe
Elliott Erwitt

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luiza Neto Jorge

27 de julho de 2010

Adrift




Eric Zener

saberás por acaso que a praia já está vazia

saberás por acaso que a praia está vazia
e as ondas já não quebram perto dela,

que nos imagino aqui à superfície,
corpos exilados à procura de água doce
e o sal a estilhaçar na pele, a traçar caminhos, a deixar rasto,

segue-me porque há ondas que rebentam na minha boca,
há guitarras e canções e correntes de ar que explodem como estrelas no meu corpo,

olha a praia azul e serena
onde a água se deita como uma pequena deusa cansada no final da tarde,

podíamos ser como ela e podíamos ficar, podemos ser cúmplices,
poderíamos amar, e quereríamos sofrer, saberíamos mudar
mas saberás sequer que aqui estamos mesmo quando nos olhas,
que o mundo por instantes é belo e perfeito
que há silêncio e que a noite se atrasa quando nos vê,
que há um significado invísivel nos teus gestos,
cheiros que se revelam como fotografias,
memórias que nos habitam como um vírus,

não há palavras pousadas na minha língua,

há expectativas espalhadas por tanto mar,
por isso te vigio, ser
estranho
mutante
prometedor


alma

Comfort


Eric Zener

23 de julho de 2010

Barcelona

Pode nem sempre ser assim

encontrei no blog #poesia


pode nem sempre ser assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus dedos fortes e meigos cingirem
o seu coração, como o meu em tempos não muito distantes;
se na face de outro os teus suaves cabelos repousarem
nesse silêncio que eu sei, ou nessas
palavras sublimes e estremecidas que, dizendo demasiado
ficam desamparadamente diante do espírito vozeando;

se assim for, eu digo se assim for –
tu do meu coração, manda-me um recado;
que eu posso ir junto dele, e tomar as suas mãos,
dizendo, Aceita toda a felicidade de mim.
Então hei-de voltar a cara, e ouvir um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.



e. e. cummings
tradução de Jorge Fazenda Lourenço

O corpo não espera

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.


Jorge de Sena

22 de julho de 2010

Ninguém...







Michael Kenna

Manhã fria e cinzenta de tão vazia

A manhã está fria e cinzenta de tão vazia,
ninguém me vê

no mar tão macio, tão pequeno ao meu redor e
tão cheio de mim,

espero as horas que chegam, e partem, e voltam
parecem-me mulheres perdidas, desamadas, loucas,
cheias de silêncio levando as marés,

não ficam, não vou

ninguém é meu, ou minha,
não há histórias, não há memórias, não há cheiros,
não há canções, não há paredes manchadas, nem roupas estragadas,
não há flores no jardim, não há passos junto à porta,
não houve início, não há fim,
não há cama para fazer, nem mesa,
nem janela para abrir, nem livro pra fechar,

há um vazio
que não é possível,

um desejo
que não cresce

há uma dor
que não mata


alma

SER DE SOMBRA

Fui até ao Insónia...e trouxe comigo este poema!


Chovia.
No bosque os pequenos ruídos de folhas de água
deslizando verde.
Chovia.
E eis que a límpida brancura se raiou de fumo
brilhando uma ágata.

Surgiam do chão os ramos os troncos
os braços desenterrados
bocas de luz
candeias
chuva de oiro o canto
desfibrado húmus
húmido incendiado.

Um ser de sombra e de água
chovia.

Os anéis dos cabelos acesos intactos
adejando a hera as mãos negras
e as anémonas
um lago.

A cinza era o que restava
verde chuva
alada
passagem rubra.


Ana Mafalda Leite

21 de julho de 2010

Atrás da porta





Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito (Nos teus pelos)*
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...

* verso original vetado pela censura

Elis Regina
Chico Buarque

Eu te amo


Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.


Chico Buarque

És um pequeno animal de papel nas minhas mãos

Desenhas-me com as tuas palavras enquanto me olhas,
e ficas depois como um pequeno animal de papel nas minhas mãos

Escreves-me
e o som vibra dentro de mim

Cheiro-te,
procurando as impressões dos teus dedos, o relevo das tuas linhas,
e nesse caminho de sobressaltos olhamo-nos

há um instante puro e esmagador que nos transforma,

um labirinto que nos tenta,

uma palavra que nos esmaga.


alma

Ler contra o silêncio | 18


Woman reading
Alexander Deineka

20 de julho de 2010

Woman Reading...



...a Possession Order





...an Eviction Letter



Tom Hunter
After Vermeer

Girl Reading a Letter in an interior



Peter Vilhelm Ilsted

Letter from home

Pat Metheny

Ler contra o silêncio | 17



Girl Reading
Marilyn Sears Bourbon

cherry blossoms...Tokyo

















Cherry blossoms



Brigitte Carnochan

Céu de sonhar

a tarde seca
um céu de cerejeiras
primeira estrela

até as pedras sonham
com as asas que não têm

Nydia Bonetti
do blog longitudes

19 de julho de 2010

Ranunculus



Brigitte Carnochan

Recordação

Agora, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.

Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.

As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exaltação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.

E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.

Restituiu-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouros de ônix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha
- e incompreensíveis, incompreensíveis.


Cecília Meireles

não são alvíssaras...mas


Rose Points
Brigitte Carnochan

Alvíssaras da Letícia

Este texto é da Letícia do blog silent(still)life. É encantador...



A palavra é deliciosa: alvíssaras.

Aprendi com José de Alencar quando tinha uns dez ou doze anos e li O tronco do ipê. Um dos capítulos do livro se intitulava justamente "Alvíssaras".

Tomei aquela palavra desconhecida à boca, maravilhada com sua eufonia, e a saboreei, como quem prova uma iguaria rara. Deixei que derretesse na língua e que seu perfume subisse até o palato para depois, só depois, pronunciá-la.

Delícia de palavra...

Imaginei, de imediato, que era um nome de flor. 'Alvíssaras'. Flor branca, claro, pela alvura anunciada desde o princípio. E o plural parece indicar uma penca, muitos cachos, de flores miúdas, daquele tipo que funciona bem em conjunto. E criei na minha cabeça primeiro uma floreira de janela, com os pompons de alvíssaras que me dariam muitos bons-dias por muitas manhãs; depois quis um canteiro de alvíssaras que iriam tagarelar à vontade com as boas e sinceras margaridas, com as rosas e suas evocações de Marias e Vênus, com as anêmonas de Adônis, com narcisos perdendo o viço, com minhas estrelizes e amarilis vaidosas. Melhor que isso: concebi depois um campo inteiro de alvíssaras, como um mar que desce do outro lado do horizonte que a gente só adivinha. Mar branco de flores delicadas.

Passado o primeiro impacto, deixei de sonhar e fui ao Aurélio meio capenga, com a capa se soltando, que tínhamos em casa. E ele me disse que as alvíssaras não compartilhavam absolutamente nada com a botânica: eram simplesmente as boas-novas, as boas notícias. Não simplesmente notícias, novidades, mas boas. É ainda a recompensa pedida e oferecida a quem traz as boas-novas e a exclamação de alegria de quem as pronuncia.

E eis que eu fico ainda mais apaixonada por essa palavra. Pensei em alvíssaras que alguém me traria (sim, como um buquê de flores - miúdas e brancas, obviamente). E pensei em alvíssaras que eu levaria a alguém, e no que seria a sementeira de alvíssaras... Pensei na brancura do papel de uma carta alvissareira, e descobri ser ainda mais saboroso o adjetivo, pondo-me às voltas com imagens de dias alvissareiros, que principiariam numa fulgurante alvorada. E não é que as alvíssaras podem mesmo trazer um novo dia, uma alvorada plena de promessas exatamente como uma folha em branco?

A etimologia, no entanto, veio negar tudo tudo tudo quanto eu criei na minha imaginação, todas as minhas viagens: a palavra vem do árabe 'al-bixrà', 'al-buxrà', que significa "a boa nova". Portanto: nem flor, nem alvor. Mas não me importa. Continua a ser uma palavra linda e de linda semântica. Mas, definitivamente, se eu tivesse o poder do demiurgo, criaria uma nova flor, branca e delicada - renda de abrolhos -, pra reunir em pencas e espalhar pelos campos, só para gastar a palavra.


Letícia de Andrade
do blog silent(still)life

16 de julho de 2010

Rosa



Hoje o céu está mais azul, eu sinto
Fecho os olhos mesmo assim, eu sinto
O meu corpo a estremecer
Não consigo adormecer

Ah, nem o tempo vai chegar
P’ra dizer o quanto eu sinto
Você longe de mim
É uma espécie de dor

Hoje o céu está mais azul, eu sinto
Olho à volta mesmo assim, eu sinto
Que este amor vai acabar
E a saudade vai voltar

Ah, nem o tempo vai chegar
Pra dizer o quanto eu sinto
Você longe de mim
É uma espécie de dor

Já não sei o que esperar
Desta vida fugidia
Não sei como explicar
Mas é mesmo assim o amor


Rosa Passos
Música de Rodrigo Leão
Letra de Ana Carolina

a cultura é uma inspiração para coisas perfeitas e impossíveis

Há de vir o dia em que a cultura não significa apenas espetáculo, financiamento, palco – mas há de ser vivida como parte do dia de cada um. Por necessidade. Por absoluta falta. Porque a cultura (a literatura, a música, a pintura, o cinema, o teatro, a língua, a paisagem, as ruínas do tempo, o património invisível) tem uma relação estreita com a felicidade e a infelicidade. Não é apenas um gueto de atividades catalogadas na ‘programação cultural’ – é, também, elegância, espírito do tempo, negação do tempo, memória, transigência. E mesas de café. Esplanadas. Contemplação. Distância. Viagem. Coisas que não se entendem. Coisas sem explicação. Vidas sem geometria. Uma respiração. Uma representação, um eco, um silêncio. Uma inspiração para coisas perfeitas e impossíveis.

Sérgio Aires (Blog # 650 a Julho 14, 2010 )
do blog Crónicas de Francisco José Viegas

15 de julho de 2010

Dissolving



Christina Sealy

Sea


Christina Sealy

Inside



Christina Sealy

é como acordar

é como acordar.

mas aquilo que flúi
quando acordas,
aquilo que te liga os dias donde vens
aos dias a que queres chegar,
aquela abundância de razão e de consciência
que te dá sentido à vida...

esse movimento está ausente
e sentes-te como um fumo.

qualquer coisa te pode esmagar,
qualquer gesto te pode transportar
a um chão que não existe,
a um caminho
que os teus passos não sabem percorrer.

e as tuas mãos ficam húmidas desse delírio.
e os olhos caem-te aflitos no lugar da doçura ausente.

e ficas sem gritar,
ergues-te sobre esse dia que chega
e tudo é maior do que possas ter para te agarrar.
e deixas-te ir, etéreo como um fumo…

podia ser esse o minuto da loucura.
podia ser esse o momento de abraçar a luz
e estalar docemente numa noite qualquer.

como uma fenda de fogo,
como um punhal de lume
que enfim te rasgasse o mundo.


gil t. sousa
do blog poesia

Happy Birthday Mr Roger

Wynton Marsalis Septet

love you baby

Há palavras que nos beijam...



Mariza
(no Palácio nacional de Queluz)

9 de julho de 2010

Barakei #32



Eikoh Hosoe

o pequeníssimo alfinete de metal

o pequeníssimo alfinete de metal
entrou finalmente
na estreita e desconhecida veia
e percorreu cioso
todo o corpo disponível,

nada foi esquecido ou negligenciado,

toda a dor, da mais estreita e fina,
à mais gloriosa e esmagadora,
foi testada,
experimentada
absorvida

e finalmente no último dia, na última página,
o alfinete e o corpo atormentado
uniram-se num só elemento,
etéreo,
porém obscuro


alma

Rendida



Josephine Sacabo

Dor





Teresa Dias Coelho

0 azul e as farpas

Sigo a sangrar, do peito ao vão das unhas,
os dardos do amor: o que há sido e o que há.
Naufragado ao vento de um cais sem mar
o que serei se alia ao que me opunha.
As farpas do desejo – esse tear
das aranhas da dor e sua alcunha
– fazem da luz do dia uma calúnia,
cravam no azul da tarde o zen do azar.
Tento amarrar o tempo e a corda é curta,
tento medir o nada e nada ajusta.
(Meus nervos tocam para os inimigos
que chegam sob o som de uma mazurca.)
Resta a mó do destino – o desabrigo
– a devolver meu pão de volta ao trigo.


Salgado Maranhão

Os fogos da fala

a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção pra cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma

Geraldo Carneiro

À flor da fala


é daqui mesmo que eu te conheço?
ah não? então de que outro lugar será
que eu não te conheço? se eu fosse místico
talvez redecifrasse a tua face
de alguma encarnação imemorial
(ou desde o princípio dos tempos,
antes que os deuses desinventassem
os carnavais do caos).
mesmo não sendo místico diria
desse pequeno prenúncio de apocalipse:
agora sim compreendo a música das esferas,
os teoremas de Arquimedes de Siracusa,
a mecânica celeste e todos os demais
mistérios do reino desse mundo: só quero
conhecer-te ainda nesta encarnação:
antes que a minha alma improvável
se arremesse na província do nada,
a morada dos seres sem amor


Geraldo Carneiro
"Evening glow" de Jennifer Anderson

8 de julho de 2010

Pudesse eu


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!


Sophia de Mello Breyner Andresen
"Eyes closed" de Jennifer Anderson

7 de julho de 2010

La cuerda de plata



Dino Valls

Só, silêncio e solidão, sempre

Só,
só,
só,
só, sempre,
solidão, sempre, só,
só,
só,
só,
tão só, eu sempre,
silêncio e solidão, sempre,
só sempre,
eu tão só.


alma

Caerolea



Dino Valls

Acabei de retirar toda a minha pele e ofereço-ta

Acabei de retirar toda a minha pele e ofereço-ta.

Para ti com amor e com palavras doentias,
E com a dor que me enlouquece,
O vómito e a palidez.

Para ti meu amor, tudo o que foi teu
e já não quero para mim,
todo o sangue que bebeste e os sentidos que cegaste.

Para ti amor, o meu sorriso rasgado,
as minhas unhas partidas,
os meus cabelos entrançados nos teus dedos.

Estarei à tua frente para sempre, meu amor,
e com todo o meu amor,
a minha alma pesada e doce roubará a cor da tua carne.


alma

El séptimo sello



Dino Valls

words...They cannot love...

You try to take comfort in words
But words
They cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more




Someone That Cannot Love
David Fonseca