26 de abril de 2007

Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

23 de abril de 2007

Três Mulheres, poema a três vozes (V)

PRIMEIRA VOZ:
Quem será que nos arremessa estas almas inocentes?
Repara, estão exaustas, completamente esgotadas
Nos seus berços forrados a tecido, os nomes presos ao pulso,
Pequenos troféus de prata que vieram buscar de tão longe.
Há algumas de cabelo negro e espesso, outras carecas.
A sua pele é rosada ou pálida, morena ou avermelhada;
Começam a registar as suas diferenças.

Parecem-me feitos de água; não têm expressão.
Os seus traços estão adormecidos, como a luz em águas tranquilas.
São autênticos monges e freiras vestidos com roupas idênticas.
Vejo-os a cair no mundo como estrelas -
Na ìndia, na África, na América,estes pequenos seres milagrosos.
Estas imagens puras e minúsculas. Cheiram a leite.
Têm as solas dos pés incólumes. Como se caminhassem no ar.

Pode o nada ser tão pródigo?
Aqui está o meu filho.
O seu imenso olhar é desse azul liso e incaracterístico.
Vira-se para mim como uma plantinha cega e luminosa.
Um grito. É esta a amarra que me sustém.
E sou um rio de leite.
Sou uma montanha tépida.

Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

18 de abril de 2007

Artist at rest



Zhang Yibo

Coisa de palavras

Coisa de palavras, sentados na relva do lago,
conversando por causa de um livro, pequenas
graças, alguma coisa termina. Os nomes das ruas
ficam sem a tinta do inverno, ponho a cabeça
fora da janela, talvez te veja, sacola ao
ombro, linhas sublinhadas, voam pedaços de
jornais. Posso dizer que passo os dias a abrir
e fechar janelas, nas esperas de nada haver
a esperar, ou talvez o corpo que quisera
acertado para o amor. Quem vem e quem não vem
é tudo o mesmo, há mais musgo nos telhados,
há menos noite, o sinal das horas desperta
este estreito corredor onde canso as mãos,
onde viajo até nova iorque, tudo é a casa,
uma orquestra de câmara, um reduzido museu,
uma feira de velharias, os jogos de ter sete
anos, e num outro poema volto a encontrar-te.
Vai sendo grave a paciência com que te
descubro estes meses passados, nunca fugirás,
respiro mal pelas cinco da manhã, se o corpo
cresce há que tapá-lo de iodo e pele nova.


Helder Moura Pinheiro

17 de abril de 2007

Faz-se luz pelo processo

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca


Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco


Mário Cesariny

12 de abril de 2007

À luz da lua | 17



Mother and Baby
Joaquin Sorolla Bastida

Carrego o teu coração comigo

carrego o teu coração comigo (carrego-o em
meu coração) nunca estou sem ele (onde
eu vou tu vais, querida; e o que é feito
só por mim és tu que fazes, meu amor)
eu não temo
nenhum destino (tu és o meu destino, meu doce) eu não quero
outro mundo (pela tua beleza ser o meu mundo, minha verdade)
e tu és seja o que for que a lua signifique
e o que quer que o sol cante sempre és tu

aqui está o segredo mais profundo que ninguém sabe
(a raíz da raíz e o botão do botão
e o céu do céu da árvore chamada vida; a qual cresce
mais alto do que a alma espera ou a mente esconde)
e este é o milagre que mantém as estrelas separadas

carrego o teu coração ( carrego-o em meu coração)


e. e. cummings
Tradução de J.T.Parreira, autor do blog Poeta Salutor

2 de abril de 2007

The crucifixion (detail)



Matthias Grunewald


Desejo a todos uma Páscoa Feliz!
... até para a semana...

Pietá


Paula Rêgo


Já lívido repousa em seu regaço.
Já não escuta, não vê, não ri, não fala.
Aquele que foi Seu filho, Ela o embala
Morto, alheia a tempo e espaço.

O mistério parou no limiar dos assombros.
Dos irados profetas, das rígidas escrituras
Sobra um Deus morto; e os únicos escombros
São a atónita aflição das criaturas.

Eles choram, vários, como vários são
Sua revolta e sua dor. Absorto,
O olhar da Mãe escorre, inútil, no chão.
Ela, o que chora? O Deus parado - ou o filho morto?


Reinaldo Ferreira