30 de junho de 2007

Ler contra o silêncio | 7



A women reading by a window
Pieter de Hoogh

Onde à nudez

Onde à nudez cabe o papel habitualmente atribuído a uma janela. Quando afasto as cores para no lugar delas não deixar senão a luz ou me debruço ao peitoril sobre os meus próprios intestinos, a ficção fica por conta dos relâmpagos. É como se habitasse uma cidade que tivesse um espelho por subúrbios e o mar viesse estilhaçar-se ao fundo da memória, onde se encontra o coração. Abro na página um buraco onde alicerço a casa, as letras vêm às janelas.


Luís Miguel Nava

La Baigneuse Valpinçon



Homage to Ingres - La Baigneuse Valpinçon
Patricia Watwood




La Baigneuse Valpinçon
Jean-Auguste Dominique Ingres

A Saída

Havia no seu corpo uma saída.
Podia através dela ir até onde quisesse, de momento que a porta não ficasse a bater com um ruído que a maior parte das pessoas confundia com o bater do coração. Não consta que o sangue o perseguisse senão muito raramente e mesmo assim não para além da beira-mar.
Trazia há algum tempo na memória um espelho onde quem quer que se abeirasse dele podia contemplar-se. Pelo espelho era possível ser os poços através dos quais a pele desaparece, as ondas momentaneamente imóveis, as areias a assaltar-lhe o coração.


Luís Miguel Nava

Portrait of Francesca



Patricia Watwood

26 de junho de 2007

Ler contra o silêncio | 6



The New Novel
Winslow Homer

Adam and Eve





Paul Kilsby

...sobre a Eutanásia

"(...) Se alguém que eu amo tiver que morrer antes do suposto, não quero pensar que irei encontrá-lo numa outra vida. Quero apenas pensar que morreu, que tudo acabou. Mas prefiro, em todo o caso, que acabe bem, que essa pessoa acabe de bem comigo. Mesmo que isso implique pôr um termo ao seu sofrimento. No meu caso, é essa a luz que me guia. É esta a luz que me apazigua a dor da perda: saber que os que partem, partem de bem comigo."

Texto de Henrique Fialho sobre a Eutanásia, a ler no Insónia.

Cão do Nilo

Aqui deixo os mortos que me pertencem e os vivos
com que me reparto. Cão do Nilo, sobreviverei bebendo
na corrida, entre o ranger metálico das culatras
e o bafo cálido da pólvora. Sigo ao sabor da corrente,
um destroço à tona de água. Perto do fim, o cerco.

Adeus amigos, ternura diluída na neblina, começo
a esquecer-vos. Perdoam-me os mortos, enigmáticos,
sorrindo e escurece, no corredor, envergonhada, a luz.
De pura cobardia reincide o coração. Na margem
do rio indistintos vultos acenam discretamente.

Transidas, não esvoaçam as aves de outrora,
imóvel e erecto o canavial petrificado. Outras
vozes sepultam já o eco da minha. Foragido
da memória irei por esse mundo além. Amigos,
fantasmas, nomes, lugares sabidos de cor, quero

chamar-vos esquecimento. Não estarei com os que verão
o declive verdejante da montanha, nem alcançarei
a Terra Prometida. Errarei o resto dos meus dias através
de paragens inóspitas, levando comigo a vaga
lembrança de um aceso país povoado de gentes,

coisas e lugares perdidos e sem rosto. O cabo
enfreia a costa que do austro vinha correndo.
Em temporais, vento e névoa, para sempre
mergulhará o continente. Olho adiante.
Sobre meus ombros cerra-se, definitiva, a noite.

Além, álgida e glabra, abre-se a luz para onde
me empurram tempo e fera ventura. No proscénio
em que se desenrola a tragédia de Lear, a saga
de Tamburlaine, ou a fúria sanguinária de Macbeth,
serei comparsa anónimo revendo, nessas cenas,

lances bem outros e diferentes. Exausto de batalhas
e combates que não travei, de conturbadas situações
em que mais não fui que espectador passivo, dormirei
por fim, transposto o limiar neutro e cinzento onde
não há lápides, lembranças da pátria, ou de coisa nenhuma.

Meus irmãos, meus inimigos desaguados nos esgotos
da Europa, irão urdindo, sob a indiferente,
brônzea miradas dos algozes, espectros e sombras,
por praças estrangeiras talhadas em granito,
silêncio e desolação. Alcácer Quibir, melhor fora

ter adormecido no deserto, melhor fora repousar
no leito das areias, convertido o sonho em ossada,
brancura na distância. Pai, entre os torpes,
fumegantes destroços do Império, teu filho esconde
o rosto e esgueira-se furtivo pelas malhas da diáspora.


Rui Knopfli

25 de junho de 2007

The beloved



Dante Gabriel Rossetti

Amador sem coisa amada

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.


António Gedeão

24 de junho de 2007

Tríptico

«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o
assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para
instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas
dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme,
naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído
áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.


Herberto Helder

Preciso amar-te por isso digo fica esta noite

Preciso amar-te por isso digo fica esta
noite, depois os dias do nosso trabalho
farão luz sobre o tempo. Tenho na cabeça
a tempestade, tantas vezes recordo aquele
corpo que não sabia do prazer que me dava,
tantas vezes acordo e o seu nome quase
me escapa dos lábios, reconheço as feridas,
os golpes todos, se lembro é porque quero
esquecer. Fica esta noite, mais outra, o
tempo que demora a cumprir a decisão de
amar-te. E vamos fazendo o curso dos dias
com algumas opiniões parecidas e ódios ás
coisas culpadas. A gente que diz coisas
de silêncio, os andaimes da cidade tapando
saídas, as horas certas quando dizemos
adeus. E que sentido têm estas lágrimas?
Eu vivo neste ano e já me esqueço de mim,
apenas vou precisar amar-te, depressa.
....................................................
Venho de distribuir tarefas e de ouvir ferro
contra ferro, o cheiro a tinta, barcos em
areia artificial, útil mentira que me conto.
Regresso à cidade de onde nunca soube partir,
pelo caminho passam aos olhos os lugares de
jogar á bola, ao berlinde, o quartel a que
conseguiram que fugisse. Regresso e não sei
se me esperam, alguma vez acreditei na
felicidade? Não voltarei a falhar, os pesadelos
que este corpo agita são meus também, as suas
palavras têm menos peso que o murmurio do
prazer, vou dizer-lhe isto, deves acreditar,
trago mais um disco, vamos a outra exposição,
vamos dar as mãos junto ao mar. Não gosto
da tarefa de ajudar a esquecer, preciso tanto
amar-te, vou ajudar a esquecer.


Helder Moura Pereira

20 de junho de 2007

o suporte da música

o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.


Vasco Graça Moura

FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO, mas não na blogosfera

O blog FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO, ficará, eventualmente, mas já não na blogosfera.
O hálito azul da tarde, espera que seja uma ausência temporária!

19 de junho de 2007

Nostalgia



Li Shuang

O ar fendido pela borboleta

O ar fendido pela borboleta
quimérica e nocturna e de cor azul.

O pólen do voo no rumor
das achas da lareira amortecida.
Os teus olhos vêm para os meus
com a água da paz de termos visto
o mesmo arco de vida atravessar
o lugar onde estávamos sózinhos

onde vogava no céu tarde
o silêncio do conspirador.

No chão de brisa de poeira
o tumulto do mundo é um luar
sombrio e essa dor serena
leva de nós todas as dores.


Joaquim Manuel Magalhães

Expectation



Li Shuang

Se estás a chegar

Se estás a chegar, a ir-te embora
estende tuas mãos, com as flores
fica o perfume na minha camisola.

As raízes vindo sob a areia
ocultas do sol buscando a água
abrem-se distantes da semente
em lugares de luz, aí bate o vento.

Outra árvore faz agora a sombra
onde nos sentámos rosto a rosto
as mãos presas na sede da camisa.

O velto cacto voltou a rebentar
no tronco seco já sem espinhos
um pequeno punho humedecido
em breve abrirá noutra flor.


Joaquim Manuel Magalhães

16 de junho de 2007

2 anos Insustentáveis

O INSUSTENTÁVEL faz hoje 2 anos!
Parabéns e... escuta esta música ...




escuta esta música, esta
ténue quietação: vai até onde
descerem as raízes
do coração por humildade.
escureceu mais cedo e vais precisar dela.

já não há rosas no voo das palavras,
só estranhezas, parques para a chuva, e há
na casa do ser sangue e suor, alguns resíduos
duma enredada, dura aprendizagem
entrelaçada nelas, devagar.

o remorso das coisas organiza-se
e é sinuosa a sua irrupção
no interior de nós mesmos. nós os hesitantes, os que
delas tanto quisemos ou deitámos
pra fora da lembrança a sua imagem veemente

e tanta paz incerta procurando-se
na mordedura de um silêncio triste.
tanto aprendi. deveria durar uma defesa
contra o interdito? ou a serenidade é tão difícil
que só a alcança o coração tumultuoso?

como se a noite fosse uma enseada sem serpentes
ou fosse às vezes pura tempestade,
eu quero ver aqui as marcas do destino, o seu
tropel diluído ou acerado, ver aqui
as marcas que vão contra a solidão.

quero a pedra do sol aqui iluminada, respirando
como a laranja numa lousa da fortuna,
ou recortada num chão de porcelana; quero os outros
bichos ondeando, os mais amados sons
quietamente livres, sem erro nem remorso nas pupilas.

na noite espreita o lince do esquecimento
e terás de evitar seus olhos brancos.
ah, escuta esta música, as suas éguas mansas,
para quando eu viver, para quando eu morrer,
escureceu mais cedo e tu precisas dela.


poema de Vasco Graça Moura
pintura "Music and Poetry" de Patricia Watwood

15 de junho de 2007

O mundo parecia morrer todas as tardes...



Ryder's House



Roofs of the Cobb Barn



Cape Cod Afternoon



Corn Hill



Hill and Houses



Bill Latham's House


Edward Hopper

14 de junho de 2007

Fragmento de...

Frankie e o casamento de Carson McCullers

"(...) O mundo parecia morrer todas as tardes, e já nada se movia. Por último, o Verão era como um sonho verde agoniante, ou como uma selva silenciosa e absurda, debaixo de vidro.(...)"

Ler contra o silêncio | 5



Shakespeare and Company
Kenney Mencher

13 de junho de 2007

Eleanor (1948)



Harry Callahan

Linha de fogo quando olhamos a direito

Linha de fogo quando olhamos a direito,
não posso reparar ao mesmo tempo nos
teus olhos e no que os teus olhos vêem.
Apenas pressinto as árvores e o avanço
calmo de três barcos entrando agora.
Agora, espiral medonha que me arrefece
os braços e inventa luz mais clara, mar
em vez deste tejo. Fiz tanta promessa,
quero partir para onde não pareça que
não cumpro.
.......................................................
Se não limpas as paredes, se não apanhas
a conversa mais calculada, as folhas
que se enrolam no chão. Rio-me do sofrimento.
E levo coisas esquecidas até à vedação
de arame, a uma linha da cor do fogo, aí
deixo cair palavras. Não dou por que passe
o tempo.


Helder Moura Pereira

Eleanor (1950)



Harry Callahan

Por mais que possa digo que não posso

Por mais que possa digo
que não posso. E vou chegando
a medo perto de ti, deixas
uma réstea da linha do corpo,
mapa de minas, bico
de esquina. Deixas que
aproxime às vezes os braços
assim a meio dos gestos, a
boca entre lançar sorrisos
e fechar-se. Agora vou
em hesitação. Agora decido,
não recuarei, abro o portão
do quintal, vou tratar das
flores, espalhar os grãos
de milho. Esquecer as colinas
sobre a pele. Enquanto
não houver segura idade.


Helder Moura Pereira

11 de junho de 2007

Bathsheba



Homage to Rembrandt Bathsheba
Patricia Watwood




Bathsheba at her bath
Rembrandt van Rijn

Corpo



Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.


poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
pintura de Mirta Kupferminc

10 de junho de 2007

The Northeaster



Homer Winslow

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen

7 de junho de 2007

Ler contra o silêncio | 4



The reading girl
Theodore Roussel

canção breve

é quando a madrugada acende a parda
tonalidade rósea do céu
antes de o sol nascer
e as nuvens vão amarelando. tarda
um pouco mais o ouro em pôr-se ao léu
e a avermelhar-se logo para arder.
é quando entre os lençóis tens um mexer
do corpo a aconchegar-se inda ao tamanho
do sono, um hesitar, a lentidão
das grandes decisões.
e então em lesto andar os pés no chão
e a espuma da nudez dando ao teu banho
estrias brancas, brilhos, borbotões.

e o teu corpo molhado. e o teu sorriso
por entre as gotas de água. o secador
deita o seu sopro quente
e o teu cabelo fica menos liso,
mas há ainda bafos de vapor
condensados no espelho à tua frente.
até que pousas secador e pente
e és ninfa nua que se cobre
de folhas de hera e cachos de glicínia
e então o meu olhar
procura encantamentos e define-a
pelas curvas macias que desdobre
cada gesto traçado pelo ar.
que esta canção tão breve, amor, perpasse
à flor da tua pele
e nela se entrelace
enquanto houver no mundo uma manhã,
mas de ti não revele
mais que essa leve sugestão pagã.


Vasco Graça Moura

6 de junho de 2007

Dança de Junho

Em silêncio nas coisas embaladas
Vão dançando ao sabor dos seus segredos.
Nos seus vestidos brancos e bordados
Raios de lua poisam como dedos,
E em redor baloiçam arvoredos
Escuros entre os céus atormentados.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia | 32



Girls on the beach
Hermann Seeger

Evadir-me, Esquecer-me

Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.


Sophia de Mello Breyner Andresen

5 de junho de 2007

Três Mulheres, poema a três vozes (VI)

PRIMEIRA VOZ:
Por quanto mais tempo poderei ser um muro contra o vento?
Por quanto mais tempo
Poderei suavemente obscurecer o sol com a palma da minha mão?
Interceptar as setas azuis da lua fria?
As vozes da solidão, as vozes da amargura
Agarram-se às minhas costas infatigavelmente.
Como poderá acalmá-las esta canção de embalar?

Por quanto mais tempo poderei ser um muro em redor da minha terra verde
Por quanto mais tempo poderão as minhas mãos
Proteger esta ferida, e as minhas palavras
Pássaros luminosos no céu, consolando, consolando?
É tremendo
Ser exposta: como se o meu coração
Pusesse uma máscara e penetrasse no mundo.


Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

Twilight



Anthony J. Ryder

4 de junho de 2007

Brevíssimo crepúsculo

Procuro o que não deixa de por meias
palavras fazer ver as ondas ascendendo
do fundo dos baús.

A água a contas com as trevas.

Fascinam-me essas ondas, bem como uma pedra às mãos
de quem procura abrir nela um sorriso, o céu
que neste poema sei subentendido e apenas
aos olhos dum rapaz a paixão trouxe num brevíssimo
crepúsculo antes de ganhar velocidade e, nos meus ombros,
as mãos desse rapaz quase de rapariga prontas
a voar. Sinto a romper na boca os dentes como a ventania.


Luís Miguel Nava

À luz da lua | 19



Bonding
Han Wu Shen

Women in Art

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor,ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luiza Neto Jorge