26 de fevereiro de 2008

O beijo



Edvard Munch

kopenhagen script

1
as árvores furiosamente nuas
largam os seus pássaros negros
num outro mês qualquer
e as estradas separam as folhas
rolam as pedras cansadas de sol
para que o sul seja um lugar
onde a água espera
e o destino se esconde
em forma de ilha

que mão amputar
se assim nos pedem o frio?


2
são tão largas as horas
que se consegue ver
a solidão dum comboio vermelho
a raspar a noite
como homens à procura de uma porta
definhando gloriosamente

nas suas estações de
desespero


3
pelas gárgulas das catedrais
escoam-se noites antigas
que homens pacientemente sábios
recolhem letra a letra

a neve, tão mansa,
guarda-lhes a sombra e os passos
que numa janela alta e distante
um outro homem há-de ler


4
às vezes os navios doem
como ópio num pulmão derrotado

ou como quando tu ficas
no impossível meridiano da ausência
e eu te aceno de um silêncio
que é quase a loucura dos pássaros



gil t. sousa
do blog #poesia

havia o vento frio e o som que fazia...


Stob Dubh, Glen Etive, Glencoe



Reflected sun, Grobsness, Shetland



Walls near Ulpha, Cumbria



Barbary Castle clump, Spring





Fay Godwin

Como viver. o que fazer

Ontem à tardinha a lua nasceu sobre esta rocha
Impura sobre um mundo inexpurgado.
O homem e seu companheiro pararam
Para descansar perante a heróica altura.

Friamente o vento caiu sobre eles
Em muitas majestades de som:
Eles que tinham deixado o sol de chama caprichosa
Em busca de um sol de fogo mais intenso.

Em vez disso havia esta rocha tufada
Elevando-se massivamente alta e nua
Para lá de todas as árvores, os cumes atirados
Como braços gigantes por entre as nuvens.

Não havia nem voz nem imagem cristada,
Nenhuma corista, nem padre. Havia
Apenas a grandiosa altura da rocha
E os dois parados de pé a descansar.

Havia o vento frio e o som
Que fazia, longe do esterco da terra
Que tinham deixado, som heróico
Alegre e jubiloso e seguro.




Wallace Stevens
traduzido por Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos

16 de fevereiro de 2008

Encosta-te a mim





...encosta-te a mim...tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo...e o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo...

Quero adormecer!


Jorge Palma

14 de fevereiro de 2008

The bride



Gustav Klimt

Sleeping woman



Man Ray

The virgin



Gustav Klimt

A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.



Alexandre O´Neill

6 de fevereiro de 2008

É com esse que eu vou

Elis Regina

Palavras

Machados,
depois do seu golpe a madeira ressoa,
e os ecos!
Ecos que partem
do centro, semelhantes a cavalos.

A seiva
jorra como lágrimas, como
água capaz de lutar
para refazer o seu espelho
sobre uma rocha

que cai e se transforma,
uma branca caveira
consumida pelas ervas daninhas.
Anos depois
encontro-as na estrada...

Palavras secas e sem cavaleiro,
infatigável ruído de cascos.
Enquanto
do mais fundo do lago as imóveis estrelas
regem a vida.



Sylvia Plath
traduzida por Maria de Lourdes Guimarães

O que me importa

Marisa Monte

Pela água

Um lago negro, um barco negro, duas pessoas negras em papel recortado.
Para onde vão as árvores negras que bebem aqui?
As suas sombras devem cobrir o Canadá.

Das flores aquáticas sai filtrada uma luz ténue.
As suas folhas não querem que nos apressemos:
São circulares e sem relevo, cheias de conselhos obscuros.

Mundos frios agitam-se com os remos.
O espírito da escuridão está em nós, está nos peixes.
Um ramo submerso ergue uma mão pálida em despedida;

as estrelas abrem-se entre os lírios.
Não ficas cego com a mudez de tais sereias?
Este é o silêncio das almas já perturbadas.



Sylvia Plath
traduzida por Maria de Lourdes Guimarães

Vem (além de toda a solidão)

Madredeus