26 de junho de 2008

Cassie´s hand




Allan Jenkins

Não tenhas medo do amor

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.




Maria do Rosário Pedreira

Marga eyelashes




Allan Jenkins

Nahoko´s lips




Allan Jenkins

Diz-me o teu nome

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.




Maria do Rosário Pedreira

Mona




Allan Jenkins

Daria




Allan Jenkins

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa


que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me


a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.




Maria do Rosário Pedreira

Elisabeth




Allan Jenkins

25 de junho de 2008

Faceless









Manuel Librodo

Há crianças nas árvores que absorvem a noite

Há crianças nas árvores que absorvem a noite,
enquanto as estrelas caiem frias no chão,
e a luz se esvai pela terra em caminhos húmidos.

As crianças que levam os fins dos dias, e correm
ensurdecedoras e felizes,
prenunciam a noite no sibilar das folhas,
e encerram as janelas nas paredes,
e nos quartos, verdes e ásperos,
um cheiro de éter escorre.

Há crianças nas árvores que absorvem a luz pálida da manhã próxima,
um dia já fora do nosso alcance.


alma

24 de junho de 2008

Domingo no mundo | 20



Valencia, 1952
Elliott Erwitt

Quando te dói a alma

Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,

quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,

quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,

nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor.



Fernanda de Castro
retirado do blog fernanda de castro

23 de junho de 2008

(Floating)




Christina Sealy

Acordo com o medo do frio que a tua mão me leva ao respirar

Acordo com o medo do frio que a tua mão me leva ao respirar.

No meu ventre aberto as tuas asas batem furiosas e o meu peito pára.
Cruzo as mãos sobre as águas salgadas onde os bicos dos pássaros mergulham,
agudos e ácidos, levando-me nas dores que já não são minhas.
Sopram-me rasgadamente pelo ar cinza irrespirável,
e não há tréguas, nem perdão.
Existe sim um fim súbito, recusado e prolongado,
e a alma escurecida e culpada, sobrevive.


alma

À luz da lua | 24



The newborn
Georges de la Tour

21 de junho de 2008

(Wendy)



Christina Sealey

meu amor, meu quente marulhar

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,
meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar
percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,
e és para mim toda a realidade nesse instante.
há roupas, sim. roupas que vais vestindo, algum creme que pões,
uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora
e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.



Vasco Graça Moura

17 de junho de 2008

O tempo que o sono come

O verde gelou, e as almas perdem-se rasteiras, sonâmbulas.

Tudo agora tão branco e esquelético,
e um cheiro a incenso e alfazema,
como se estivessemos guardados, desde sempre, numa gaveta.

A madeira range quando pensamos respirar,
como um aviso, uma ameaça velada,
e há um choro tardio que fica para trás...
uma ladaínha breve a marcar o tempo que o sono come.


alma