5 de janeiro de 2009

Inverno: o meu segredo

Revelar meu segredo? Não, por certo;
Talvez quem sabe, um dia em breve.
Mas hoje não; tombou geada e neve.
Se a curiosidade te hei desperto
E sem pudor o queres ouvir, pois bem:
O segredo é meu, não conto a ninguém.

Talvez nem haja nada que contar:
Imagina afinal que não há segredo,
Era só a brincar.
Hoje está frio, é um dia azedo
Em que faz falta uma roupa abafada,
Um xaile e mantas que nos aqueçam;
Não posso abrir a todos quantos peçam,
Deixar o vento entrar-me de rajada,
Rodear-me, cercar-me,
Aturdir-me, assustar-me,
Enregelar-me sob este disfarce
Que me aconchega;
Pois quem quer desnudar-se
Ao vento frio que o há-de fustigar?
Não me fustigarias? Obrigada,
Mas deixa essa verdade inda velada.

É bela a Primavera; todavia
Não confio em Março com seus tremores,
Nem em Abril co´a breve chuva fria,
Muito menos em Maio cujas flores
Murcham co´a geada da noite sombria.

Talvez num dia lânguido de Estio,
Quando o sol faz as árvores dormitar
E se cobre de ouro a loura espiga,
Com fresca brisa mas sem nenhum frio
E o vento muito manso a soprar;
Talvez o meu segredo eu te diga,
Ou tu possas adivinhar.



Christina Georgina Rossetti,
tradução de Margarida Vale de Gato