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Recebes a noite

Recebes a noite, na vaga incerta
de lucidez. Todo alado e desnorte.
Abre-se a nave intransponível do teu peito.
Nenhum lugar dele se acede.
Quieto, sondas a manifesta dor,
o erro fulgurante
dança-te diante dos olhos.
É tarde - dizes - e estendes os dedos
ao limite próximo da sombra.
Dás um passo. Caminhas?
Daqui é somente a noite que te engole
ou tanta outra loucura
que te nomeia.




Fernando M. Dinis
do blog FICO ATÉ TARDE NESTE MUNDO

Comentários

Fico sempre tão feliz.
Obrigado.
Ana Isabel disse…
...eu também, pelo seu regresso, que celebrei aqui no dia 12 de setembro, e pelas palavras que escreve...abraço

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A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos
de mármore e losango, onde as colunas
se deploram silentes, sem que as pombas
venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas
no vazio mais branco e na insolvência
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,
desperdiçando a terra, e já recuam
para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
é a vida um suspiro sem paixão.


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