Avançar para o conteúdo principal

eira do catavento | 2. junho

estás a olhar para mim. tens um chapéu de palha
de abas a acompanhar a curva do teu riso. pode ser
ou praia ou campo o sítio em que me encontras.
eu sei que é no jardim, que os cães agora
dormitam, que há mais rosas quase a abrir,

regadas de manhã, que olhaste as trepadeiras
e mudaste um hibisco, que estão num canto a pá,
o regador, um vaso já sem terra ontem comprado
(não, não vamos à feira logo à tarde)
e além sobe por fim a madressilva.

dão-te as argolas um ar aciganado, acentuando
a tua tez meridional por entre as sombras
leves que tens no rosto, enquanto ris
como a dizer de um tempo sem história,
feito das brisas do sossego, das claridades do verão.


Vasco Graça Moura

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos
de mármore e losango, onde as colunas
se deploram silentes, sem que as pombas
venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas
no vazio mais branco e na insolvência
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,
desperdiçando a terra, e já recuam
para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
é a vida um suspiro sem paixão.


Carlos Drummond de Andrade
"(...) Mas quem te disse que é proibido estar triste? A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste (...)"

Héctor Abad Faciolince
Receitas de Amor para Mulheres Tristes

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto