Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Inverno: o meu segredo

Revelar meu segredo? Não, por certo; Talvez quem sabe, um dia em breve. Mas hoje não; tombou geada e neve. Se a curiosidade te hei desperto E sem pudor o queres ouvir, pois bem: O segredo é meu, não conto a ninguém. Talvez nem haja nada que contar: Imagina afinal que não há segredo, Era só a brincar. Hoje está frio, é um dia azedo Em que faz falta uma roupa abafada, Um xaile e mantas que nos aqueçam; Não posso abrir a todos quantos peçam, Deixar o vento entrar-me de rajada, Rodear-me, cercar-me, Aturdir-me, assustar-me, Enregelar-me sob este disfarce Que me aconchega; Pois quem quer desnudar-se Ao vento frio que o há-de fustigar? Não me fustigarias? Obrigada, Mas deixa essa verdade inda velada. É bela a Primavera; todavia Não confio em Março com seus tremores, Nem em Abril co´a breve chuva fria, Muito menos em Maio cujas flores Murcham co´a geada da noite sombria. Talvez num dia lânguido de Estio, Quando o sol faz as árvores dormitar E se cobre de ouro a loura espiga, Com fresca brisa ...

Espáduas brancas palpitantes...

Succulent Calla Lily Magnolia Blossom Jeffrey Conley

Auto retrato

Espáduas brancas palpitantes: asas no exílio dum corpo. Os braços calhas cintilantes para o comboio da alma. E os olhos emigrantes no navio da pálpebra encalhado em renúncia ou cobardia. Por vezes fêmea. Por vezes monja. Conforme a noite. Conforme o dia. Molusco. Esponja embebida num filtro de magia. Aranha de ouro presa na teia dos seus ardis. E aos pés um coração de louça quebrado em jogos infantis. Natália Correia

Rose and Driftwood

Ansel Adams

Mount Williamson

Ansel Adams

Tenho-te comigo como uma erva selvagem

Tenho comigo o frio gelado e silencioso da noite. Há uma ténue linha de terra, quase praia, junto ao mar que filtra um pouco do cinzento denso do nevoeiro, e a tua sombra no alpendre, à minha porta, fica agora mais clara e visível, mais perto da dor intensa, do amor refeito e da despedida. Esta partida que é tua, tão ausente, tão perto da espera que aguarda o passar dos meses, o fim do Inverno. Mas tenho-te comigo como uma erva selvagem e forte, como algo que resiste. alma

Chesil beach

Birt Wisle

Fragmento de...

Na praia de Chesil de Ian McEwan "(...) Tudo o que desejava, a única coisa em que conseguia pensar era em si mesmo e em Florence deitados nús na cama do quarto contíguo, finalmente confrontados com essa experiência atemorizadora que parecia tão distante da vida quotidiana como uma visão de êxtase religioso, ou até a própria morte.(...)"

California Kiss

Elliott Erwin

Windflowers

John William Waterhouse

Um aniversário

Meu coração é um pássaro cantante Cujo ninho é um rebento orvalhado; Meu coração é uma macieira Vergando o tronco de frutos pesado; Meu coração é um búzio irisado Vogando na corrente com langor; Meu coração mais que tudo se alegra Porque a meus braços chegou meu amor. Dai-me um dossel tingido de cor roxa; De seda debruada de mil folhos; Bordai nele romãs, pombos alados, Pavões com caudas de mais de cem olhos; Ornai-o de uvas, de rubis e prata, Folhas douradas, pomares em flor; Porque hoje é dia que nasce m´nha vida, Hoje a meus braços chegou meu amor. Christina Rossetti tradução de Margarida Vale de Gato

Ler contra o silêncio | 16

Studying Iman Maleki

2 anos

O hálito azul da tarde faz hoje 2 anos e... vai continuando...seguindo o rastro... Os primeiros encontros Cada momento passado juntos Era uma celebração, uma Epifania Nós os dois sozinhos no mundo, Tu, tão audaz, mais leve que uma asa, Descias numa vertigem a escada A dois e dois, arrastando-me Através de húmidos lilases, aos teus domínios Do outro lado, passando o espelho. Pela noite concedias-me o favor, Abriam-se as portas do altar E a nossa nudez iluminava o escuro À medida que genuflectia. E ao acordar Eu diria “Abençoada sejas!” Sabendo como pretensiosa era a bênção: Dormias, os lilases tombavam da mesa Para tocar-te as pálpebras num universo de azul, E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente. Rios palpitantes por dentro do cristal, A montanha assomando na bruma, mar enfurecido, E tu com a bola de cristal nas mãos, Sentada num trono enquanto dormes, - Deus do céu! – tu pertences-me. Acordas para transfigurar As palavras de todos os dias...

Aqui nesta praia | 38

Ondine,  Paul Gauguin

Bem-vinda

Ocorre-me que vais chegar distinta não exactamente mais linda nem mais forte nem mais dócil nem mais cauta somente que vais chegar distinta como se esta temporada de não me veres te tivesse surpreendido a ti também talvez porque sabes como te penso e te enumero depois de tudo a nostalgia existe ainda que não choremos nos corredores fantasmáticos nem sobre as almofadas de candor nem por baixo do céu opaco eu nostalgio tu nostalgias e que me interessa que ele nostalgie o teu rosto é vanguarda talvez chegue primeiro porque o pinto nas paredes com traços invisíveis e seguros não esqueças que o teu rosto me olha como povo sorri e enfurece-se e canta como povo e isso dá-te uma luz inapagável agora não tenho dúvidas vais chegar distinta e com sinais com novas com profundidade com franqueza sei que vou querer-te sem perguntas sei que vais querer-me sem respostas Mario Benedetti

Susmita

Kate Lehman