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Guarda-me o dia em sua luz a graça

Guarda-me o dia em sua luz a graça
da hora final em ouro que debrua
a nuvem no abandono que extenua
a lembrança em recato enquanto passa

ao banho de águas claras e flutua
o espírito no tanque aonde a baça
marca de amigos passos vai na traça
da recta infinitude e desvirtua

esta os sentidos Pronto o lugar sei
o pé detém-se a erva fique intacta
e que o chão é incólume verei

do sol a declinar que ali desata
incêndios no horizonte: então fenece
o dia e meu refúgio me aparece.




Walter Benjamin
tradução de Vasco Graça Moura

Comentários

Mateso disse…
Que sauvidade, como se o dia se escoa-se assim de leno e dourado...

Bj.

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A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos
de mármore e losango, onde as colunas
se deploram silentes, sem que as pombas
venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas
no vazio mais branco e na insolvência
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,
desperdiçando a terra, e já recuam
para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
é a vida um suspiro sem paixão.


Carlos Drummond de Andrade

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto