23 de setembro de 2007

Três Mulheres, poema a três vozes (VII)

PRIMEIRA VOZ:
A madrugada resplandece no ulmeiro grande junto à casa.
As andorinhas estão de volta. Soltam gritos como foguetes a estoirar.
Ouço o passar das horas
A crescer e a morrer nas cercas. Ouço o mugir das vacas.
As cores tingem-se de plenitude, e a palha húmida
Fumega ao sol.
Os narcisos abrem faces brancas no pomar.

Estou calma. Estou calma.
Estas são as cores claras e alegres do quarto das crianças,
Os patinhos que falam, os cordeirinhos risonhos.
Voltei a ser simples. Acredito em milagres.
Não acredito nessas terríveis crianças
Que me atormentam os sonhos com os seus olhos em branco, as suas mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Meditarei sobre a normalidade.
Meditarei sobre o meu filhinho.
Não anda. Não diz ainda uma palavra.
Está ainda enfaixado de branco.
Mas é rosado e perfeito. E sorri tão frequentemente.
Decorei o seu quarto com grandes rosas,
Pintei coraçãozinhos por toda a parte.

Não quero que ele seja excepcional.
É a excepção que interessa ao demónio.
É a excepção que causa os grandes tormentos
Ou que pousa no deserto e faz sofrer o coração da mãe.
Quero que ele seja vulgar,
Que me ame como eu o amo,
E que case com o que quiser e onde o desejar.


Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

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