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Vénus ao espelho

se a vénus ao espelho fosse
uma oliveira a arder por dentro
com sua chama de óleo doce
e tudo em brasa desde o centro,

se o seu espelho acaso fosse
embaciado pelo alento
que algum cúpido em voo trouxe
entre desejo e atrevimento,

se o ar no quarto depois fosse
feito luz táctil do aposento
e se entranhasse a tomar posse
da nudez rósea no cinzento,

e se velásquez então fosse
pintar-lhe o ensimesmamento
eu te diria: misturou-se
ao próprio instinto o pensamento.

Vasco Graça Moura





Diego Velázquez



Vejo as duas vidas que tu olhas; e
das duas não sei qual escolher. Tiro-te
do espelho; e à minha frente és
o reflexo que imagino, num pedaço
de realidade. Mas se tento tocar-te,
é o vidro que me impede de passar
para onde estás, e de onde me chamas,
num eco de desejo.

Pudesse eu partir o espelho,
e ver em cada estilhaço os fragmentos
de vida em que nos encontrámos! Ou
colar ao vidro a minha boca, e encontrar
húmidos os teus lábios! Porém,
nada desvia a tua atenção; e
no rosto que olhas vês o rosto
que o vê, pensando em todos aqueles
que te hão-de ver.

Nuno Júdice

Comentários

Belos poemas... Obrigada pelo momento...

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A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos
de mármore e losango, onde as colunas
se deploram silentes, sem que as pombas
venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas
no vazio mais branco e na insolvência
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,
desperdiçando a terra, e já recuam
para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
é a vida um suspiro sem paixão.


Carlos Drummond de Andrade

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto