23 de abril de 2007

Três Mulheres, poema a três vozes (V)

PRIMEIRA VOZ:
Quem será que nos arremessa estas almas inocentes?
Repara, estão exaustas, completamente esgotadas
Nos seus berços forrados a tecido, os nomes presos ao pulso,
Pequenos troféus de prata que vieram buscar de tão longe.
Há algumas de cabelo negro e espesso, outras carecas.
A sua pele é rosada ou pálida, morena ou avermelhada;
Começam a registar as suas diferenças.

Parecem-me feitos de água; não têm expressão.
Os seus traços estão adormecidos, como a luz em águas tranquilas.
São autênticos monges e freiras vestidos com roupas idênticas.
Vejo-os a cair no mundo como estrelas -
Na ìndia, na África, na América,estes pequenos seres milagrosos.
Estas imagens puras e minúsculas. Cheiram a leite.
Têm as solas dos pés incólumes. Como se caminhassem no ar.

Pode o nada ser tão pródigo?
Aqui está o meu filho.
O seu imenso olhar é desse azul liso e incaracterístico.
Vira-se para mim como uma plantinha cega e luminosa.
Um grito. É esta a amarra que me sustém.
E sou um rio de leite.
Sou uma montanha tépida.

Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

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