30 de abril de 2014

Boca da Foz (V)

Pelo caminho do estaleiro vê-se uma linha de luzes que ilumina os últimos homens que regressam a casa. Ouvem-se amiúde, pedaços da sua conversa, e gargalhadas. O mesmo ritual de todos os dias a refocilar o ânimo e a camaradagem que os une.
Antes de entrar em casa, Natália vê Sebastião encostado na janela do quarto e lembra-se das pequenas conversas que têm. Recorda-se das primeiras, quando ele lhe perguntava, várias vezes, e sempre como se fosse a primeira vez: “Para onde foram os papás?”. Natália respondia-lhe: “Partiram, meu amor!”. Ao final de algum tempo, provavelmente depois de Sebastião considerar que a mesma resposta sempre dada seria um sinal convincente sobre a sua veracidade, começou a questionar: “Para onde?”. E aí Natália respondeu “Para as estrelas!”. Depois disso, passaram a falar de muitas outras coisas, e de astronomia. Sebastião começou a interessar-se pelos cometas, pelos planetas e pelas estrelas e, todos os dias, Natália lhe ensinava uma palavra nova sobre o universo. Paralaxe tinha sido a palavra de hoje e ele estava absolutamente fascinado. Encostado ao vidro da janela olhava um céu repleto de retas que ia traçando e desenhando numa folha de papel. Um autêntico xadrez espacial.

A lua move-se suavemente. Ouve-se ao longe o caminhar suave das águas do rio, sem pressa de chegar ao mar. Natália já deitou Sebastião e, sentada no alpendre, espera. Daquele lugar, avista a praia pequena no lado mais norte da vila. Fica atenta. Há noites em que vê alguém a mergulhar naquelas águas. Uma mulher de cabelos longos e ondulados, que se incendeiam quando um raio de luar lhes toca. E um homem que chega depois. Abraçam-se. Agarram-se. Prendem-se. Juntos parecem duas asas. Natália observa-os com profunda admiração. Guarda-os de longe. Emociona-se. Reconhece-os.

Uma luz pálida dança na charneca ao seu lado, aproxima-se, roça nas suas pernas e pára.  

Simão abre o vidro do carro e respira fundo o ar tépido daquela noite. Aguarda um momento dentro da viatura e olha para Natália sentada no alpendre. Ela espera. Aquela mulher é o seu abrigo, a sua carne, a sua luta e a sua paz. Lê toda a sua vida naquele pequeno corpo iluminado. Simão hesita em sair do carro. Aquele momento é sublime e belo. Quase insustentável. Natália espera. A lua move-se como um candelabro mágico. Simão abre a porta do carro. Ela sorri.

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