3 de abril de 2014

Boca da Foz (II)

Passaram mais ou menos 6 anos. Naquele lugarejo, era mesmo difícil contar os dias, os meses, os anos. Havia horas que duravam alguns minutos e dias que se prolongavam por vários meses. Tal como no resto do mundo, amanhecia e anoitecia em Boca da Foz, mas esses eventos não determinavam por si só o início ou o fim de alguma coisa. Eram apenas uma orientação, uma referência útil, porque a vila não vivia isolada.
Era como se o tempo fosse intuído, pressentido pela alma de cada um.  

Sebastião entrou na vida deles num dia muito curto de novembro. Precisamente há 3 anos. Num dia tão curto e com tão pouca luz que recordá-lo tornara-se confuso. Ficara sozinho de repente. Sem entender o que acontecera. Sem perceber se, inadvertidamente, poderia ter sido ele a provocar aquela situação. Mas não sentiu qualquer espécie de medo ou susto, ou até mesmo de tristeza. Ele parecia antever o que o esperava. Como se a sua vida fosse uma história já contada pela sua mãe, à noite, antes de adormecer.
Sebastião parecia não sentir a ausência dos seus pais, mas tinha saudades do seu cheiro encostado a si. Saudades de ser olhado por eles. Saudades de ouvir o som das suas vozes e o barulho que as suas vidas em conjunto faziam.
A irmã de Natália e o marido desapareceram da vida de Sebastião, numa madrugada tempestuosa, a caminho de casa, depois de uma noite de festa. E foi esta circunstância que espantou Sebastião. Essa falha, essa terrível imprevisibilidade. Essa variável obscura de nos podermos perder a caminho de casa. Esta tremenda interrogação apoderou-se da sua mente durante muitos dias e muitas noites.

Quando chegou a casa dos tios, teve vontade de nunca mais de lá sair.

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