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Acto de união | 2

Ainda imperialmente macho nesta altura
eis-me a deixar-te com o sofrimento:
na colónia o processo de ruptura,
o ariete, o romper do dique por dentro.
O acto gerou uma quinta coluna
obstinada crescendo unilateral,
de coração tambor de guerra que reuna
as forças sob o teu. Seus punhos, afinal,
pequenos, néscios, parasitas, já
te batem nas fronteiras e sei-os retesados
através da água contra mim. Nenhum tratado dá,
prevejo, inteira cura ao teu corpo marcado
e assim lasso de estrias, dor grande que te fez
em carne viva, como chão aberto, uma outra vez.



Seamus Heaney
traduzido por Vasco Graça Moura

Comentários

Ch disse…
Minha cara Ana;
Achei verdadeiramente linda a seleta poética do irlandês Seamus Heaney, também pela tradução de autoria do Vasco Graça Moura para o nosso vernáculo português, idioma de tão bela expressão.
Parece-me que aqui a gente aplaca um pouco a ânsia por coisas belas e sensíveis, como este poema, o texto de Lawrence e a Arte de Lord Leighton.
Abraços.
Carlos

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A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos
de mármore e losango, onde as colunas
se deploram silentes, sem que as pombas
venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas
no vazio mais branco e na insolvência
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,
desperdiçando a terra, e já recuam
para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
é a vida um suspiro sem paixão.


Carlos Drummond de Andrade

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto