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Levas-me inteiro

Levas-me inteiro
Mais longe nos tecidos
Algures a germinar
Um ovo
Em estado de promessa.


Choro, talvez
Chore ainda mais ainda mais talvez


Lavas-me, escorro
De ti para as ruas ainda mais de ti


Seria simples imaginar
Uma das tuas mãos
Com os ossos da minha.
A outra, a carne.


Mas eu não gosto de coisas simples.



Manuel Cintra

Comentários

Ch disse…
Minha cara Ana;
Contente por revê-la de volta ao blog, e mais ainda com tua simpática visita.
Por aqui, de tudo vi e achei conforme, com destaque para a exuberante seleta de poemas que escolheste.
Manoel Cintra...que grata surpresa!
Guardo muita identidade com os poetas portugueses. Há sempre lugar para eles no meu imaginário e no meu coração.
Um abraço do
Carlos

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A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos
de mármore e losango, onde as colunas
se deploram silentes, sem que as pombas
venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas
no vazio mais branco e na insolvência
de arquiteturas não arquitetadas,
porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,
desperdiçando a terra, e já recuam
para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,
e nas tuas pupilas, sob o tédio,
é a vida um suspiro sem paixão.


Carlos Drummond de Andrade

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto