27 de julho de 2007

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!




Florbela Espanca

1 comentário:

CH disse...

Vim recuperando os vestígios de postagens anteriores...
E me deslumbrei com a Arte de Winslow Homer, com a interpretação visceral de Elis, com os belos poemas de Sophia de Mello, Graça Pires e Eugénio de Andrade, e também com os brasileiros, tão bem representados por Vinicius.
Chegando, por fim, às lagrimas ocultas de Florbela, deleite só!
Isso aqui continua belo, Ana!
Um abraço do
Carlos