27 de março de 2007

Remissão

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, e suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo de teu ser?


Carlos Drummond de Andrade

1 comentário:

Victor Canti disse...

estou conhecendo Drummond melhor agora, e este poema me encantou, busquei pelo google e achei sau página, bela postagem...
boa semana!!
beijos