16 de janeiro de 2007

Três Mulheres, poema a três vozes (III)

PRIMEIRA VOZ:
Não há milagre mais cruel que este.
Sou arrastada por cavalos, por cascos de ferro.
Resisto. Resisto o mais que posso. Concluo a obra.
Um túnel negro, através do qual se percipitam as aparições,
As aparições, as evidências, os rostos desfigurados.
Sou o centro de uma atrocidade.
Que dores, que penas estarei eu a dar à luz?

Será esta inocência capaz de matar e matar repetidamente? Suga-me a vida
As árvores secam na rua. A chuva é corrosiva.
Experimento-a na minha língua, e todos os outros horrores praticáveis,
Os horrores que esperam e espreitam, as madrinhas desdenhosas
Com os corações a fazerem tic tic, e os seus saquinhos de instrumentos.
Eu hei-de ser uma parede e um tecto protector.
Hei-de ser um céu e uma montanha de bondade: Mas agora deixem-me!

Sinto uma força a crescer dentro de mim, uma imensa tenacidade.
Rasgo-me ao meio, como o mundo. E há esta escuridão,
Toda esta profunda escuridão. Cruzo as mãos sobre uma montanha.
O ar está espesso. Está espesso com o labor.
Sou usada. Sou usada à força.
Os meus olhos são esmagados por toda esta escuridão.
Não vejo nada.

Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

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