17 de novembro de 2006

A imprevista graça de um soluço infante

Alguma dor cortante, violina, um gume, acorda uma saudade do que nunca foi, inventa um tempo afável, o da distância aberta no olhar da tarde que se debruça sobre o meu deleite, sobre a surpresa de a achar suspensa no limiar daquilo que previa, e assim já a sabia, sem saber de ti.

Saudade de algum tempo já por certo inscrito na memória dos génios, pois de quem mais, da luz? Tal luz de maio velho que vem do mar para arder-te o rosto e a luz e a cor e dar-me a ver, perplexo, no instante de um relance, que era preciso ter chegado aqui para entender as devoções remotas, o brilho inscrito na exaustão dos dias que agora enfim, no espelho do teu porte, revelam os segredos para que me votavam, porque era de ti mesma que falavam e me induziam a aguardar-te intacto?

Há quanto tempo é que afinal me habitas, vigias a intenção de imagens que entreguei, esquivas leituras que retive em sons para enfeitar o céu de tanta gente? É pois desse fervor, que era já teu (e algum lugar em mim já sabia) e me ateava para fundir-me às pedras, às rotas da caça, aos rumos dos homens e à prenhez das mães, à matriz das noites e à glória dos dias. É pois de um tal fervor que purga essa saudade, resina em brasa na salva do peito, e assim germina, frágil e tenra, a imprevista oferta de um soluço infante?

Ou é do que há para ler na cor que expões, e o que aprendi e disse, colhi e partilhei, urdi, não foi senão o que era azado dar-se para me cumprir maduro, em ti, por fim?

Saudade então de uma noção de mim que me previa inteiro, antes de ser já sendo e por fervor de ti. Dessa costura que une tempo ao tempo. De um tempo a haver, portanto, devolvido a mim e pronto para me dar, isento e feito para vencer-me em ti.

Ruy Duarte de Carvalho

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