19 de outubro de 2006

Três Mulheres, poema a três vozes (II)

PRIMEIRA VOZ:
Estou calma. Estou calma. A calma que se sente antes
duma catástrofe:
O minuto gélido antes do vento entrar, quando as folhas se
reviram
E mostram a sua palidez. Está tudo tão calmo aqui.
Os lençóis, as faces lívidas e mudas, como relógios.
Vozes que se afastam e esmorecem ao loge. Os seus
hieróglifos
Transformam-se em biombos de pergaminho lutando contra
o vento.
Os segredos que se pintam em árabe e chinês!

Estou muda e escura. Sou uma semente prestes a explodir.
A escuridão vem do meu eu morto e é taciturna:
Não deseja ser mais, ou diferente.
O crepúsculo cobre-me de azul, agora, qual Maria.
Ó cor da distância e do esquecimento!-
Quando virá o momento em que o Tempo pare
E a eternidade o devore, e eu me afogue irremediavelmente?
Falo comigo mesma, apenas comigo, separada de tudo -
Esfregada com desinfectantes e lúgubre como para um
sacrifício.
A espera pesa-me nas pálpebras. Pesa-me como o sono,
Como um imenso mar. Ao longe, muito ao longe, sinto a
primeira onda
Descarregar a sua agonia contra mim, incontrlável, como
a maré.
E eu, concha ecoando nesta praia branca
Enfrento as vozes avassaladoras, o terrível elemento.

Sylvia Plath
traduzida por Ana Gabriela Macedo

1 comentário:

marta r disse...

Só há bem pouco tempo, tive ocasião de conhecer melhor Sylvia Plath. Gostei e gosto. Este poema só vem confirmar.