8 de setembro de 2006

Ao Lume da Água

Detinhamo-nos por entre a luz e o rumor
da alegria, o som da erva e a brandura grave
dos seus gestos. Tínhamos o sentido de tudo
ao alcance de nossas mãos. Quase bastaria
estendê-las e pousá-las na fria realidade,

tomar-lhe o peso redondo, sentir-lhe a superfície
apreensível. E, de repente, o negrume informe
e espesso, o desmoronar vertiginoso da razão
(Oh meu Amor, à beira da morte, tão perto
da vida! Estremeces nos meus braços,

levo na minha à tua boca a respiração
indispensável, um ténue sopro alveolar.
Estremeces, pequeno animal de ternura,
teu único sentido alerta, no mais um opaco
sono crepuscular. Gaivota surpreendida

no cerne da tormenta, tenteias hesitante,
vagarosamente, a frágil ponte lançada
através da bruma. Permaneces equilibrada
sobre o pavor e a ternura. Liga-nos uma acesa
elipse de fogo, uma curva seminal

apoiada em lábios, línguas, sexo
e nos bornes da imaginação. Por aí
circulamos, livres, esguios peixes
líquidos deslizando em silêncio
e penumbra. Amanhã não é, talvez.

Por ora respiras. Mantenho em perda
o teu corpo ao lume de água).
Detém-se da alegria o brando rumor;
Apaziguados os gestos, serena a erva.
Entre lodo e sal, devagar, cristaliza a luz.

in O Escriba Acocorado
Rui Knopfli

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