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A mostrar mensagens com a etiqueta Vasco Graça Moura

meu amor, meu quente marulhar

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais, meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado, e és para mim toda a realidade nesse instante. há roupas, sim. roupas que vais vestindo, algum creme que pões, uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora e o sol de inverno a alastrar nas vinhas. Vasco Graça Moura

canto contra este silêncio

canto contra este silêncio que é da minha solidão e o meu canto à noite vence-o no bater do coração canto contra este silêncio e a cantar ando na lua percorro a terra em segundos, junto a minha boca à tua, conheço mundos e mundos, e a cantar ando na lua se me calo, volta a treva e essa tristeza tamanha de quem tão alto se eleva e tão baixo se despenha, se me calo, volta a treva melodias leva o sonho como o vento pela barra quando adormeço e me ponho a sonhar junto à guitarra melodias traz o sonho canto contra este silêncio que é da minha solidão e o meu canto à noite vence-o no bater do coração canto contra este silêncio Vasco Graça Moura

Guarda-me o dia em sua luz a graça

Guarda-me o dia em sua luz a graça da hora final em ouro que debrua a nuvem no abandono que extenua a lembrança em recato enquanto passa ao banho de águas claras e flutua o espírito no tanque aonde a baça marca de amigos passos vai na traça da recta infinitude e desvirtua esta os sentidos Pronto o lugar sei o pé detém-se a erva fique intacta e que o chão é incólume verei do sol a declinar que ali desata incêndios no horizonte: então fenece o dia e meu refúgio me aparece. Walter Benjamin tradução de Vasco Graça Moura

O Metropolitano

No túnel encurvado ali íamos nós. à frente, ágil, de casaco de viagem, tu, e eu, a apanhar-te como um deus veloz antes que te mudasses em bambu ou nalguma nova flor branca e vermelha, e as abas a adejarem com força, eis que se espalha botão após botão num rasto que assim role entre o metropolitano e o Albert Hall. Lua de mel, andar na lua, tarde para os Promenade, os nossos ecos morrem nesse corredor e agora hei-de ir como Hansel ia pelas pedrinhas batidas pela lua refazendo o caminho, apanhando os botões da rua para acabar nas correntes de ar e na luz frouxa da estação, partindo os combóios, na via húmida que jaz a nu e tensa como eu, todo atenção aos teus passos e a perder-me se olho para trás. Seamus Heaney tradução de Vasco Graça Moura

Parto feliz quanto o silêncio o sele

Parto feliz quanto o silêncio o sele de que ao nascer fui logo destinado a ser brilho da noite no olhar dado a quem silente ao vasto céu se impele a ser raio que toca os olhos dele e em que feliz está quem não é nado e junto à face a ser mais afagado que no azul voga em nuvem que revele a luz Estava escrito nunca havia de me vibrar a boca sem o canto e a minha fronte o extremo arco seria do berço em prece ardente a orlá-lo enquanto aconteceu que me escapou então com minha jovem morte em sua mão. Walter Benjamin tradução de Vasco Graça Moura

Acto de união | 2

Ainda imperialmente macho nesta altura eis-me a deixar-te com o sofrimento: na colónia o processo de ruptura, o ariete, o romper do dique por dentro. O acto gerou uma quinta coluna obstinada crescendo unilateral, de coração tambor de guerra que reuna as forças sob o teu. Seus punhos, afinal, pequenos, néscios, parasitas, já te batem nas fronteiras e sei-os retesados através da água contra mim. Nenhum tratado dá, prevejo, inteira cura ao teu corpo marcado e assim lasso de estrias, dor grande que te fez em carne viva, como chão aberto, uma outra vez. Seamus Heaney traduzido por Vasco Graça Moura

Acto de união | I

Esta noite, um primeiro movimento, uma pulsão, como se a chuva no pântano jorrasse uma cabeça: um rebentar do lodo ou um rasgão que abre a cama dos fetos e a atravessa. O teu dorso é uma linha firme da costa a nascente e além das graduais colinas são lançados braços e pernas. Acaricio a entumescente província onde cresceu o nosso passado. Sou o alto reino sobre o teu ombro quedo e em ti nada o adula ou o ignora. Conquistar é mentira. Envelheço e concedo teu litoral semi-independente e agora dentro dos seus limites meu legado fica inexoravelmente culminado. Seamus Heaney traduzido por Vasco Graça Moura

eira do catavento | 4. janeiro

os radiadores são pouco bucólicos, mas aquecem a casa toda, impedem que tiritemos e que a humidade venha aos livros. na lareira da sala o fogo lambe o ar alegremente, entre estalidos de lenha a crepitar quando ela pega e não faz fumo, e o temporal desabrido, lá fora, dá-nos a medida de uma tépida mediania cá dentro, enquanto passam as horas sem sobressalto e é já noite fechada e sabe bem um chá bem quente, um agasalho, uma poltrona, um livro, uma vontade vagabunda de escrever. é inverno, húmido e frio, cor de cinza empastada e rasa de água. meu amor, deixa-te estar aqui, ainda há tempo, tempo antes do jantar e das notícias. tempo agora e depois. aqui. deixa-te estar aqui, fica ainda aqui. Vasco Graça Moura

eira do catavento | 3. setembro

agora o outono chega, nos seus plácidos meneios pelas vinhas. um dos vizinhos passa um cabaz de maçãs por sobre a vedação: redondas, verdes, o seu perfume vai dentro de quinze dias ser mais forte. a noite cai mais cedo e apetece guardar certos vermelhos da folhagem e amarelos e castanhos nas ladeiras de setembro. a rádio fala no tempo variável que vem aí dentro de dias. talvez caia uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas. aproveita-se o outono no macio enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo. devagar, dvagar. é mais doce no outono a tua pele, Vasco Graça Moura

eira do catavento | 2. junho

estás a olhar para mim. tens um chapéu de palha de abas a acompanhar a curva do teu riso. pode ser ou praia ou campo o sítio em que me encontras. eu sei que é no jardim, que os cães agora dormitam, que há mais rosas quase a abrir, regadas de manhã, que olhaste as trepadeiras e mudaste um hibisco, que estão num canto a pá, o regador, um vaso já sem terra ontem comprado (não, não vamos à feira logo à tarde) e além sobe por fim a madressilva. dão-te as argolas um ar aciganado, acentuando a tua tez meridional por entre as sombras leves que tens no rosto, enquanto ris como a dizer de um tempo sem história, feito das brisas do sossego, das claridades do verão. Vasco Graça Moura

eira do catavento | 1. março

está um bela manhã, clara e fria, há restos de geada na relva e notas de amarelo-vivo nos limoeiros. umas rosas, junto ao muro, resistiram ao inverno e o sol brilha levemente enevoado. o cachorro derrubou um vaso de buxo. fica uma mancha de terra muito preta nos degraus. salvar o buxo, reenvasá-lo, tarefas da manhã com ralhos ao cachorro que não percebe e continua a saltitar na relva húmida à minha volta. apito, digo-lhe, isto não se faz. aponto-lhe o indicador e ele dá à cauda, alegre e despreocupado. sabe que há-de saltar atrás das borboletas. Vasco Graça Moura

as glicínias

nos alpendres de junho perpassa um halo azul a desprender-se em cheiros que procuram a terra devagar numa gaze de luminescências e de abelhas. é quando cresce a música na intimidade das glicínias e se despenha o seu perfume nas sombras mais intensas, como se falássemos das águas ou da matéria da melancolia nesta luz feita de sussurros do jardim e o mundo começasse pelas narinas e o nó da vida se prendesse ao voo de um aroma, à sua consistência doce, arejada entre o chão e as núvens. desce pelos vãos da solidão macia, lento como um óleo a alastrar na pele do tempo, o enredamento grave das glicínias, para um torpor, para um renascimento, para uma canção breve das delícias, um recordar de mágoas, um cacho de silêncios, um respirar mais fundo, um habitar. Vasco Graça Moura (para josé domingos da cruz santos)

o suporte da música

o suporte da música pode ser a relação entre um homem e uma mulher, a pauta dos seus gestos tocando-se, ou dos seus olhares encontrando-se, ou das suas vogais adivinhando-se abertas e recíprocas, ou dos seus obscuros sinais de entendimento, crescendo como trepadeiras entre eles. o suporte da música pode ser uma apetência dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se ramifica entre os timbres, os perfumes, mas é também um ritmo interior, uma parcela do cosmos, e eles sabem-no, perpassando por uns frágeis momentos, concentrado num ponto minúsculo, intensamente luminoso, que a música, desvendando-se, desdobra, entre conhecimento e cúmplice harmonia. Vasco Graça Moura

2 anos Insustentáveis

O INSUSTENTÁVEL faz hoje 2 anos! Parabéns e... escuta esta música ... escuta esta música, esta ténue quietação: vai até onde descerem as raízes do coração por humildade. escureceu mais cedo e vais precisar dela. já não há rosas no voo das palavras, só estranhezas, parques para a chuva, e há na casa do ser sangue e suor, alguns resíduos duma enredada, dura aprendizagem entrelaçada nelas, devagar. o remorso das coisas organiza-se e é sinuosa a sua irrupção no interior de nós mesmos. nós os hesitantes, os que delas tanto quisemos ou deitámos pra fora da lembrança a sua imagem veemente e tanta paz incerta procurando-se na mordedura de um silêncio triste. tanto aprendi. deveria durar uma defesa contra o interdito? ou a serenidade é tão difícil que só a alcança o coração tumultuoso? como se a noite fosse uma enseada sem serpentes ou fosse às vezes pura tempestade, eu quero ver aqui as marcas do destino, o seu tropel diluído ou acerado, ver aqui as marcas que vão contra a solidão. quero a pe...

canção breve

é quando a madrugada acende a parda tonalidade rósea do céu antes de o sol nascer e as nuvens vão amarelando. tarda um pouco mais o ouro em pôr-se ao léu e a avermelhar-se logo para arder. é quando entre os lençóis tens um mexer do corpo a aconchegar-se inda ao tamanho do sono, um hesitar, a lentidão das grandes decisões. e então em lesto andar os pés no chão e a espuma da nudez dando ao teu banho estrias brancas, brilhos, borbotões. e o teu corpo molhado. e o teu sorriso por entre as gotas de água. o secador deita o seu sopro quente e o teu cabelo fica menos liso, mas há ainda bafos de vapor condensados no espelho à tua frente. até que pousas secador e pente e és ninfa nua que se cobre de folhas de hera e cachos de glicínia e então o meu olhar procura encantamentos e define-a pelas curvas macias que desdobre cada gesto traçado pelo ar. que esta canção tão breve, amor, perpasse à flor da tua pele e nela se entrelace enquanto houver no mundo uma manhã, mas de ti não revele mais que essa...

Vénus ao espelho

se a vénus ao espelho fosse uma oliveira a arder por dentro com sua chama de óleo doce e tudo em brasa desde o centro, se o seu espelho acaso fosse embaciado pelo alento que algum cúpido em voo trouxe entre desejo e atrevimento, se o ar no quarto depois fosse feito luz táctil do aposento e se entranhasse a tomar posse da nudez rósea no cinzento, e se velásquez então fosse pintar-lhe o ensimesmamento eu te diria: misturou-se ao próprio instinto o pensamento. Vasco Graça Moura Diego Velázquez Vejo as duas vidas que tu olhas; e das duas não sei qual escolher. Tiro-te do espelho; e à minha frente és o reflexo que imagino, num pedaço de realidade. Mas se tento tocar-te, é o vidro que me impede de passar para onde estás, e de onde me chamas, num eco de desejo. Pudesse eu partir o espelho, e ver em cada estilhaço os fragmentos de vida em que nos encontrámos! Ou colar ao vidro a minha boca, e encontrar húmidos os teus lábios! Porém, nada desvia a tua atenção; e no rosto que olhas vês o rosto q...

fragmento

são asas de alvoroço ou são sinais? são sombras agitadas na descida? são palavras aladas junto ao cais? são um rumor no vento? ou repetida animação do instante nas mnhãs quando ao passar da gente passa a vida e alguêm espera olhando as horas vãs? Vasco Graça Moura

alba em memória de sophia

é quando a luz safira e cor de rosa a humedecer as nuvens, matinal, alastra pelas praias, vagarosa, e nas dunas rendilha o seu metal, é quando algas e mar, corais, espuma e sombras transparentes vêm na brisa, é quando em nós a lira desarruma a angústia e o silêncio e a imprecisa densidade do tempo e se combina do ouvido à alma na medida certa uma geometria cristalina, é quando um crespo deus pagão desperta a dar o alento próprio à maresia e canta ao encontrar-se com sophia. Vasco Graça Moura

ars poetica

trabalhar o mundo, as relações de vizinhança entre os seres e as coisas, no intervalo exacto da sua infelicidade constritiva. encontrar o que te leva a dar essa ênfase à palavra, ou a tirar-lha, sempre que o sintas oportuno, calibrando-a em nome do que leste, de quem amas, de quem te desespera, de uma experiência única no emaranhar das sombras e das vozes. e técnica, técnica até ao sarro do silêncio e do ruído assim porás a nu o que a própria nudez por si não tem, a menos que, sofrendo, lho acrescentes. a poesia revela inesperados desencontros e neles poderás modular-te, falar das tuas ilusões, do que te falta até ao osso. nem outra coisa é o desengano: simular uma ordem entrevista e sustentá-la in absentia ou no luto. vem a dar ao mesmo. o âmago do poema é o seu mecanismo e o seu mecanismo só tu podes inventá-lo e pô-lo a funcionar para que alguém nele se reonheça e também faça do interior do poema a sua casa, encontre nela o seu espaço, meça por ela o seu tempo, guarde nela contigo ...

como a sentir a tua cara rente

como a sentir a tua cara rente à minha e as tuas mãos nas minhas, ou como se a dança amarguradamente nos desse nesta noite ainda um slow levado a medo, apenas a ternura a conduzir de leve os nossos passos e o corpo estremecendo-te à procura do seu lugar na grade dos meus braços e a luz, fina película de vidros por entre a frialdade de janeiro, a trespassar os corações partidos estranhamente, e o meu sendo o primeiro, como se não doesse o que doía na própria dor tingida de alegria. Vasco Graça Moura