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canção breve

é quando a madrugada acende a parda
tonalidade rósea do céu
antes de o sol nascer
e as nuvens vão amarelando. tarda
um pouco mais o ouro em pôr-se ao léu
e a avermelhar-se logo para arder.
é quando entre os lençóis tens um mexer
do corpo a aconchegar-se inda ao tamanho
do sono, um hesitar, a lentidão
das grandes decisões.
e então em lesto andar os pés no chão
e a espuma da nudez dando ao teu banho
estrias brancas, brilhos, borbotões.

e o teu corpo molhado. e o teu sorriso
por entre as gotas de água. o secador
deita o seu sopro quente
e o teu cabelo fica menos liso,
mas há ainda bafos de vapor
condensados no espelho à tua frente.
até que pousas secador e pente
e és ninfa nua que se cobre
de folhas de hera e cachos de glicínia
e então o meu olhar
procura encantamentos e define-a
pelas curvas macias que desdobre
cada gesto traçado pelo ar.
que esta canção tão breve, amor, perpasse
à flor da tua pele
e nela se entrelace
enquanto houver no mundo uma manhã,
mas de ti não revele
mais que essa leve sugestão pagã.


Vasco Graça Moura

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