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A mostrar mensagens com a etiqueta Poetas Portugueses

Princípios

Podíamos saber um pouco mais da morte. Mas não seria isso que nos faria ter vontade de morrer mais depressa. Podíamos saber um pouco mais da vida. Talvez não precisássemos de viver tanto, quando só o que é preciso é saber que temos de viver. Podíamos saber um pouco mais do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada sabemos do amor. Nuno Júdice

A minha morte não ta dou

A minha morte, não ta dou.  De resto, tiveste tudo  - a flor, a sesta, o lusco-fusco,  a inquietação do dia 8,  as órbitas das mães, das mãos,  das curiosas palavras de não dizer nadinha.  Tudo tiveste: estás contente?  Feliz assim por teres tudo o que sou?  Feliz por perderes tudo o que sei?  Só não te dou o que não serei.  Não, a minha morte, não ta dou.  Pedro Tamen

Aqueronte

Não sei que barco tomar quando estou na margem do teu corpo... Pedro Freitas

Estação do Trem

E depois acordamos sempre ainda meio vivos Um pouco ensonados É-nos mais ou menos fácil entrar na vida depois destas coisas Prometemos várias vezes que não tocaríamos o amor por jogatanas de pingue-pongue e quando finalmente percebemos que o ace do pingue-pong é e-x-a-t-a-m-e-n-t-e a medida certa do amor rejubilamos na gargalhada que só pode ser que afinal sempre foi (os dois acreditamos nisso) a herança de Deus para nós. Sim olha eu lembro-me de quando tu só sabias contar até quatrocentos. Matilde Campilho

Tudo

Deitado numa núvem de não-ser Deixei ao deus-dará tantos abraços Afastando-me assim, sem o saber Do ponto de chegada dos meus passos Caminho é quanto fica da viagem Paragem é caminho para trás E agora só me resta por bagagem O tanto mal que fez o tanto-faz Julgava não ser nada, e era tudo Pois tudo, em cada nada, acontece Pr' além das sombras do tempo miúdo A grande luz do tempo permanece Contigo, tenho agora de inventar Essoutra núvem de uma cor diferente Em que, à força de aprender como te amar Eu aprenda a amar tudo e toda a gente À força de aprender como te amar Aprendo a amar tudo e toda a gente José Mário Branco (fado das núvens)

O seu esplendor

Esta é a hora do esplendor. Abram todas as janelas brancas. As árvores estão noivas das suas sombras e vão começar a caminhar ao som de marchas e de palmas. O amor que ninguém inventou na Terra une o que o Céu ignora. Esta é a hora do esplendor. Toda a dor tem o seu penso rápido a atá-la, e nós vamos, vamos pela senda das árvores, como elas de braços levantados, na hora do noivado que ficou à sua espera. Tudo isto aconteceu no tempo da Primavera da rapariga ainda não amada. Lídia Jorge O Livro das Tréguas

Testamento

Se por acaso morrer durante o sono não quero que te preocupes inutilmente. Será apenas uma noite sucedendo-se a outra noite interminavelmente. Se a doença me tolher na cama e a morte aí me for buscar, beija Amor, com a força de quem ama, estes olhos cansados, no último instante. Se, pela triste monotonia do entardecer, me encontrarem estendido e morto, quero que me venhas ver e tocar o frio e sangue do corpo. Se, pelo contrário, morrer na guerra e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia, quero que saibas, Amor, quero que saibas, pelo cérebro rebentado, pela seca veia, pela pólvora e pelas balas entranhadas na dura carne gelada, que morri sim, que me não repito, mas que ecoo inteiro na força do meu grito. Rui Knopfli

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim e se por acaso te toco a memória... amas ou finges morrer pressinto o aroma luminoso dos fogos escuto o rumor da terra molhada a fala queimada das estrelas é noite ainda o corpo ausente instala-se vagarosamente envelheço com a nómada solidão das aves já não possuo a brancura oculta das palavras e nenhum lume irrompe para beberes Al Berto

Verdes anos

Era o amor que chegava e partia: estarmos os dois era um calor que arrefecia sem antes nem depois… Era um segredo sem ninguém para ouvir: eram enganos e era um medo, a morte a rir nos nossos verdes anos... Teus olhos não eram paz, não eram consolação. O amor que o tempo traz o tempo o leva na mão. Foi o tempo que secou a flor que ainda não era. Como o Outono chegou no lugar da Primavera! No nosso sangue corria um vento de sermos sós. Nascia a noite e era dia, e o dia acabava em nós… O que em nós mal começava não teve nome de vida: era um beijo que se dava numa boca já perdida. Pedro Tamen

Explicação da eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo. o ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo. os assuntos que julgámos mais profundos, mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo. por si só, o tempo não é nada. a idade de nada é nada. a eternidade não existe. no entanto, a eternidade existe. os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. os instantes do teu sorriso eram eternos. os instantes do teu corpo de luz eram eternos. foste eterna até ao fim.  José Luís Peixoto

Queda

O vazio cai abissal no rasgo dos olhos Carlos Couto Amaral O Alpinista Descendente, é o livro que abre hoje a 2ª época do Clube de Leitura da  Livraria e Papelaria Espaço , em Algés

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga. José Luís Peixoto

Noite apressada

Era uma noite apressada depois de um dia tão lento. Era uma rosa encarnada aberta nesse momento. Era uma boca fechada sob a mordaça de um lenço. Era afinal quase nada, e tudo parecia imenso! Imensa, a casa perdida no meio do vendaval; imensa, a linha da vida no seu desenho mortal; imensa, na despedida, a certeza do final. Era uma haste inclinada sob o capricho do vento. Era a minh'alma, dobrada, dentro do teu pensamento. Era uma igreja assaltada, mas que cheirava a incenso. Era afinal quase nada, e tudo parecia imenso! Imensa, a luz proibida no centro da catedral; imensa, a voz diluída além do bem e do mal; imensa, por toda a vida, uma descrença total! David Mourão-Ferreira

Passagem

Com que palavras ou que lábios é possível estar assim tão perto do fogo e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas, tão sem peso por cima do pensamento? Pode bem acontecer que exista tudo e isto também, e não só uma voz de ninguém. Onde, porém? Em que lugares reais, tão perto que as palavras são de mais? Agora que os deuses partiram, e estamos, se possível, ainda mais sós, sem forma e vazios, inocentes de nós, como diremos ainda margens e diremos rios? Manuel António Pina

Foi um momento

Foi um momento O em que pousaste   Sobre o meu braço,   Num movimento   Mais de cansaço   Que pensamento,   A tua mão   E a retiraste.   Senti ou não ?   Não sei. Mas lembro   E sinto ainda   Qualquer memória   Fixa e corpórea   Onde pousaste   A mão que teve   Qualquer sentido   Incompreendido.   Mas tão de leve!...   Tudo isto é nada,   Mas numa estrada   Como é a vida   Há muita coisa Incompreendida...   Sei eu se quando   A tua mão   Senti pousando   ‘Sobre o meu braço,   E um pouco, um pouco,   No coração,   Não houve um ritmo   Novo no espaço?   Como se tu,   Sem o querer,   Em mim tocasses   Para dizer   Qualquer mistério,   Súbito e etéreo,   Que nem soubesses   Que tinha ser.   Assim a brisa   Nos ramos diz   Sem o saber   Uma imprecisa...

...este sangue de luz que a madrugada entorna...

Guerra Junqueiro declamado por Pedro Abrunhosa

Contigo

Acordo na manhã de oiro entre o teu rosto e o mar. As mãos afagam a luz, prolongam o dia breve. Entre o teu rosto e o mar ninguém deseja ser neve. Ninguém deseja o veneno da noite despovoada. Acorda-me a tua voz, nupcial, branca, delgada. Eugénio de Andrade

Bebida

{aos resistentes deste blogue} bebo onde existe sede. a mão arrefece com o peso da cabeça. este silêncio resgata palavras  para além dos factos magros e esguios. o meu sangue conhece o amor. leio Östen Sjöstrand lia Östen Sjöstrand há cinco minutos atrás. alguém me chamou e tudo ficou diferente. não digo que seja apenas este poema. não é, claramente, apenas este poema. bebo onde existe sede. Sylvia Beirute do blog   Uma casa em Beirute