Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Poetas Americanos

Pode nem sempre ser assim

encontrei no blog #poesia pode nem sempre ser assim; e eu digo que se os teus lábios, que amei, tocarem os de outro, e os teus dedos fortes e meigos cingirem o seu coração, como o meu em tempos não muito distantes; se na face de outro os teus suaves cabelos repousarem nesse silêncio que eu sei, ou nessas palavras sublimes e estremecidas que, dizendo demasiado ficam desamparadamente diante do espírito vozeando; se assim for, eu digo se assim for – tu do meu coração, manda-me um recado; que eu posso ir junto dele, e tomar as suas mãos, dizendo, Aceita toda a felicidade de mim. Então hei-de voltar a cara, e ouvir um pássaro cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. e. e. cummings tradução de Jorge Fazenda Lourenço

Como viver. o que fazer

Ontem à tardinha a lua nasceu sobre esta rocha Impura sobre um mundo inexpurgado. O homem e seu companheiro pararam Para descansar perante a heróica altura. Friamente o vento caiu sobre eles Em muitas majestades de som: Eles que tinham deixado o sol de chama caprichosa Em busca de um sol de fogo mais intenso. Em vez disso havia esta rocha tufada Elevando-se massivamente alta e nua Para lá de todas as árvores, os cumes atirados Como braços gigantes por entre as nuvens. Não havia nem voz nem imagem cristada, Nenhuma corista, nem padre. Havia Apenas a grandiosa altura da rocha E os dois parados de pé a descansar. Havia o vento frio e o som Que fazia, longe do esterco da terra Que tinham deixado, som heróico Alegre e jubiloso e seguro. Wallace Stevens traduzido por Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos

Palavras

Machados, depois do seu golpe a madeira ressoa, e os ecos! Ecos que partem do centro, semelhantes a cavalos. A seiva jorra como lágrimas, como água capaz de lutar para refazer o seu espelho sobre uma rocha que cai e se transforma, uma branca caveira consumida pelas ervas daninhas. Anos depois encontro-as na estrada... Palavras secas e sem cavaleiro, infatigável ruído de cascos. Enquanto do mais fundo do lago as imóveis estrelas regem a vida. Sylvia Plath traduzida por Maria de Lourdes Guimarães

Pela água

Um lago negro, um barco negro, duas pessoas negras em papel recortado. Para onde vão as árvores negras que bebem aqui? As suas sombras devem cobrir o Canadá. Das flores aquáticas sai filtrada uma luz ténue. As suas folhas não querem que nos apressemos: São circulares e sem relevo, cheias de conselhos obscuros. Mundos frios agitam-se com os remos. O espírito da escuridão está em nós, está nos peixes. Um ramo submerso ergue uma mão pálida em despedida; as estrelas abrem-se entre os lírios. Não ficas cego com a mudez de tais sereias? Este é o silêncio das almas já perturbadas. Sylvia Plath traduzida por Maria de Lourdes Guimarães

O jardim do solar

As fontes estão secas e as rosas acabaram. Incenso da morte. O teu dia aproxima-se. As pêras engordam como pequenos budas. Uma névoa azul prolonga o lago. Moves-te atravês da era dos peixes, dos presumidos séculos do porco... A cabeça, os dedos dos pés e das mãos saem nítidos da sombra. A História alimenta estas caneluras quebradas, estas coroas de acantos, e o corvo vem arranjar as suas vestes. Tu herdas a urze branca, uma asa de abelha. Dois suicidas, os lobos da família, horas de escuridão. Algumas estrelas isoladas já iluminam os céus. A aranha na sua própria teia atravessa o lago. Os vermes abandonam as suas casas habituais. As pequenas aves convergem, convergem com as suas dádivas para um difícil nascimento. Sylvia Plath traduzida por Maria de Lourdes Guimarães

Três Mulheres, poema a três vozes (VII)

PRIMEIRA VOZ: A madrugada resplandece no ulmeiro grande junto à casa. As andorinhas estão de volta. Soltam gritos como foguetes a estoirar. Ouço o passar das horas A crescer e a morrer nas cercas. Ouço o mugir das vacas. As cores tingem-se de plenitude, e a palha húmida Fumega ao sol. Os narcisos abrem faces brancas no pomar. Estou calma. Estou calma. Estas são as cores claras e alegres do quarto das crianças, Os patinhos que falam, os cordeirinhos risonhos. Voltei a ser simples. Acredito em milagres. Não acredito nessas terríveis crianças Que me atormentam os sonhos com os seus olhos em branco, as suas mãos sem dedos. Não são minhas. Não me pertencem. Meditarei sobre a normalidade. Meditarei sobre o meu filhinho. Não anda. Não diz ainda uma palavra. Está ainda enfaixado de branco. Mas é rosado e perfeito. E sorri tão frequentemente. Decorei o seu quarto com grandes rosas, Pintei coraçãozinhos por toda a parte. Não quero que ele seja excepcional. É a excepção que interessa ao demónio. ...

Três Mulheres, poema a três vozes (VI)

PRIMEIRA VOZ: Por quanto mais tempo poderei ser um muro contra o vento? Por quanto mais tempo Poderei suavemente obscurecer o sol com a palma da minha mão? Interceptar as setas azuis da lua fria? As vozes da solidão, as vozes da amargura Agarram-se às minhas costas infatigavelmente. Como poderá acalmá-las esta canção de embalar? Por quanto mais tempo poderei ser um muro em redor da minha terra verde Por quanto mais tempo poderão as minhas mãos Proteger esta ferida, e as minhas palavras Pássaros luminosos no céu, consolando, consolando? É tremendo Ser exposta: como se o meu coração Pusesse uma máscara e penetrasse no mundo. Sylvia Plath traduzida por Ana Gabriela Macedo

Três Mulheres, poema a três vozes (V)

PRIMEIRA VOZ: Quem será que nos arremessa estas almas inocentes? Repara, estão exaustas, completamente esgotadas Nos seus berços forrados a tecido, os nomes presos ao pulso, Pequenos troféus de prata que vieram buscar de tão longe. Há algumas de cabelo negro e espesso, outras carecas. A sua pele é rosada ou pálida, morena ou avermelhada; Começam a registar as suas diferenças. Parecem-me feitos de água; não têm expressão. Os seus traços estão adormecidos, como a luz em águas tranquilas. São autênticos monges e freiras vestidos com roupas idênticas. Vejo-os a cair no mundo como estrelas - Na ìndia, na África, na América,estes pequenos seres milagrosos. Estas imagens puras e minúsculas. Cheiram a leite. Têm as solas dos pés incólumes. Como se caminhassem no ar. Pode o nada ser tão pródigo? Aqui está o meu filho. O seu imenso olhar é desse azul liso e incaracterístico. Vira-se para mim como uma plantinha cega e luminosa. Um grito. É esta a amarra que me sustém. E sou um rio de leite. Sou u...

Carrego o teu coração comigo

carrego o teu coração comigo (carrego-o em meu coração) nunca estou sem ele (onde eu vou tu vais, querida; e o que é feito só por mim és tu que fazes, meu amor) eu não temo nenhum destino (tu és o meu destino, meu doce) eu não quero outro mundo (pela tua beleza ser o meu mundo, minha verdade) e tu és seja o que for que a lua signifique e o que quer que o sol cante sempre és tu aqui está o segredo mais profundo que ninguém sabe (a raíz da raíz e o botão do botão e o céu do céu da árvore chamada vida; a qual cresce mais alto do que a alma espera ou a mente esconde) e este é o milagre que mantém as estrelas separadas carrego o teu coração ( carrego-o em meu coração) e. e. cummings Tradução de J.T.Parreira, autor do blog Poeta Salutor

Três Mulheres, poema a três vozes (IV)

PRIMEIRA VOZ: Quem é ele, este rapaz azul e furibundo, Brilhante e estranho, como se tivesse sido arremessado de uma estrela? Tem um ar tão zangado! Voou pelo quarto adentro, com um berro no calcanhar. O azul empalidece. Afinal é humano. Um lotus escarlate abre-se na sua poça de sangue. Estão a coser-me com seda, como se eu fosse um pedaço de pano. O que fizeram os meus dedos antes de o erguer? O que fez o meu coração ao seu amor? Nunca vi nada tão claro. As suas pálpebras são como a flor do lilás E suave como mariposa a sua respiração. Não o abandonarei. não há ambição ou maldade nele. Que assim possa permanecer. Sylvia Plath traduzida por Ana Gabriela Macedo

Três Mulheres, poema a três vozes (III)

PRIMEIRA VOZ: Não há milagre mais cruel que este. Sou arrastada por cavalos, por cascos de ferro. Resisto. Resisto o mais que posso. Concluo a obra. Um túnel negro, através do qual se percipitam as aparições, As aparições, as evidências, os rostos desfigurados. Sou o centro de uma atrocidade. Que dores, que penas estarei eu a dar à luz? Será esta inocência capaz de matar e matar repetidamente? Suga-me a vida As árvores secam na rua. A chuva é corrosiva. Experimento-a na minha língua, e todos os outros horrores praticáveis, Os horrores que esperam e espreitam, as madrinhas desdenhosas Com os corações a fazerem tic tic, e os seus saquinhos de instrumentos. Eu hei-de ser uma parede e um tecto protector. Hei-de ser um céu e uma montanha de bondade: Mas agora deixem-me! Sinto uma força a crescer dentro de mim, uma imensa tenacidade. Rasgo-me ao meio, como o mundo. E há esta escuridão, Toda esta profunda escuridão. Cruzo as mãos sobre uma montanha. O ar está espesso. Está espesso com o labor...

Três Mulheres, poema a três vozes (II)

PRIMEIRA VOZ: Estou calma. Estou calma. A calma que se sente antes duma catástrofe: O minuto gélido antes do vento entrar, quando as folhas se reviram E mostram a sua palidez. Está tudo tão calmo aqui. Os lençóis, as faces lívidas e mudas, como relógios. Vozes que se afastam e esmorecem ao loge. Os seus hieróglifos Transformam-se em biombos de pergaminho lutando contra o vento. Os segredos que se pintam em árabe e chinês! Estou muda e escura. Sou uma semente prestes a explodir. A escuridão vem do meu eu morto e é taciturna: Não deseja ser mais, ou diferente. O crepúsculo cobre-me de azul, agora, qual Maria. Ó cor da distância e do esquecimento!- Quando virá o momento em que o Tempo pare E a eternidade o devore, e eu me afogue irremediavelmente? Falo comigo mesma, apenas comigo, separada de tudo - Esfregada com desinfectantes e lúgubre como para um sacrifício. A espera pesa-me nas pálpebras. Pesa-me como o sono, Como um imenso mar. Ao longe, muito ao longe, sinto a primeira onda Descarr...

Três Mulheres, poema a três vozes

Local: Uma Maternidade e zonas circundantes PRIMEIRA VOZ: Possuo a lentidão do mundo. Espero pacientemente Que o meu tempo se escoe, o sol e as estrelas observando-me Atentamente. A preocupação da lua é mais íntima: Passa e volta a passar luminosa como uma enfermeira. Será que lamenta o que está prestes a acontecer? Não me Parece. É apenas o espanto perante a fertilidade. Quando eu sair daqui, serei um acontecimento notável. Não vale a pena preocupar-me ou sequer ensaiar. O que me está a acontecer, seguirá o seu curso naturalmente. O faisão está de pé na montanha; Exibe as suas penas castanhas. Não posso deixar de sorrir ao pensar no que sei. As folhas e as pétalas esperam-me. Estou pronta. Sylvia Plath traduzida por Ana Gabriela Macedo