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A mostrar mensagens com a etiqueta Helder Moura Pereira

Preciso amar-te por isso digo fica esta noite

Preciso amar-te por isso digo fica esta noite, depois os dias do nosso trabalho farão luz sobre o tempo. Tenho na cabeça a tempestade, tantas vezes recordo aquele corpo que não sabia do prazer que me dava, tantas vezes acordo e o seu nome quase me escapa dos lábios, reconheço as feridas, os golpes todos, se lembro é porque quero esquecer. Fica esta noite, mais outra, o tempo que demora a cumprir a decisão de amar-te. E vamos fazendo o curso dos dias com algumas opiniões parecidas e ódios ás coisas culpadas. A gente que diz coisas de silêncio, os andaimes da cidade tapando saídas, as horas certas quando dizemos adeus. E que sentido têm estas lágrimas? Eu vivo neste ano e já me esqueço de mim, apenas vou precisar amar-te, depressa. .................................................... Venho de distribuir tarefas e de ouvir ferro contra ferro, o cheiro a tinta, barcos em areia artificial, útil mentira que me conto. Regresso à cidade de onde nunca soube partir, pelo caminho passam aos olhos...

Linha de fogo quando olhamos a direito

Linha de fogo quando olhamos a direito, não posso reparar ao mesmo tempo nos teus olhos e no que os teus olhos vêem. Apenas pressinto as árvores e o avanço calmo de três barcos entrando agora. Agora, espiral medonha que me arrefece os braços e inventa luz mais clara, mar em vez deste tejo. Fiz tanta promessa, quero partir para onde não pareça que não cumpro. ....................................................... Se não limpas as paredes, se não apanhas a conversa mais calculada, as folhas que se enrolam no chão. Rio-me do sofrimento. E levo coisas esquecidas até à vedação de arame, a uma linha da cor do fogo, aí deixo cair palavras. Não dou por que passe o tempo. Helder Moura Pereira

Por mais que possa digo que não posso

Por mais que possa digo que não posso. E vou chegando a medo perto de ti, deixas uma réstea da linha do corpo, mapa de minas, bico de esquina. Deixas que aproxime às vezes os braços assim a meio dos gestos, a boca entre lançar sorrisos e fechar-se. Agora vou em hesitação. Agora decido, não recuarei, abro o portão do quintal, vou tratar das flores, espalhar os grãos de milho. Esquecer as colinas sobre a pele. Enquanto não houver segura idade. Helder Moura Pereira

Coisa de palavras

Coisa de palavras, sentados na relva do lago, conversando por causa de um livro, pequenas graças, alguma coisa termina. Os nomes das ruas ficam sem a tinta do inverno, ponho a cabeça fora da janela, talvez te veja, sacola ao ombro, linhas sublinhadas, voam pedaços de jornais. Posso dizer que passo os dias a abrir e fechar janelas, nas esperas de nada haver a esperar, ou talvez o corpo que quisera acertado para o amor. Quem vem e quem não vem é tudo o mesmo, há mais musgo nos telhados, há menos noite, o sinal das horas desperta este estreito corredor onde canso as mãos, onde viajo até nova iorque, tudo é a casa, uma orquestra de câmara, um reduzido museu, uma feira de velharias, os jogos de ter sete anos, e num outro poema volto a encontrar-te. Vai sendo grave a paciência com que te descubro estes meses passados, nunca fugirás, respiro mal pelas cinco da manhã, se o corpo cresce há que tapá-lo de iodo e pele nova. Helder Moura Pinheiro

Por um rosto chego ao teu rosto

Por um rosto chego ao teu rosto, noutro corpo sei o teu corpo. Num autocarro, num café me pergunto porque não falam o que vai no seu silêncio aqueles cujo olhar me fala da solidão. Esqueço-me de mim. Tão quieto pensando na sua pouca coragem, a minha sempre adiada. Por um rosto chegaria ao teu rosto, mesmo de um convite ousado fugiria, esta mão conhece-te e desenha no ar o hábito por que andou antes de saíres do espaço à sua volta. Estás longe, só assim podes pedir algumas horas aos meus dias. Sem fixar a voz a tua voz é uma corda, a minha um fio a partir-se. Helder Moura Pereira

Escrevias pela noite fora

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava o que ia ficando nas pausas entre cada sorriso. Por ti mudei a razão das coisas, faz de conta que não sei as coisas que não queres que saiba, acabei por te pensar com crianças à volta. Agora há prédios onde havia laranjeiras e romãs no chão e as palavras nem o sabem dizer, apenas apontam a rua que foi comum, o quarto estreito. Um livro é suficiente neste passeio. Quando não escreves estás a ler e ao lado das árvores o silêncio é maior. Decerto te digo o que penso baixando a cabeça e tu respondes sempre com a cabeça inclinada e o fumo suspenso no ar. As verdades nunca se disseram. Queria prender-te, tornar a perder-te, achar-te assim por acaso no meu dia livre a meio da semana. Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono custa. Porque estou contigo e me deixas a tua imagem passa pelas noites sem sono, está aqui a cadeira em que te sentaste a escrever lendo. Pudes...

A mágoa é um vício

A mágoa é um vício, a ele volto pelas madeiras desta casa, as memórias são mais que os sinais pendurados ao longo das paredes, não descrevo o que vejo. O que sinto quase está no silêncio, deixa de ser tempo o tempo da noite, nos papéis há desenhos que o matam, pontos ganhos, contas de somar, fáceis artimanhas evitando as palavras. Nada difere de como ponho a mão na testa, de como se afasta o sol para trás dos castanheiros. Tento dizer que sou como vós, leves amantes de suaves lazeres, contradigo, desminto, nada acontece. Para o dia de hoje um pequeno esboço de tristeza, derrota de cumprir, tarefa de vencer, antes da noite os ombros, as rugas, terão significado preciso. Só o recomeço será tempo de sorrisos. Helder Moura Pereira

Os teus olhos falam mais que a tua boca

Os teus olhos falam mais que a tua boca, movem-se à procura do raciocínio, da palavra certa que não há ou apenas vendida à ilusão e à crença. Os teus olhos movem os meus, se os seguir hei-de perceber o convencimento e a alegria. Por tais armadilhas não hei-de morrer, por um copo de vinho contigo escolhido posso matar longínquas recordações do corpo. Vejo o fosso, a vala à altura de um homem, o cheiro a desinfectante, o túnel da vida que é uma estrada que vai dar ao mar e por ele passo sem dar por isso, a morada é um número. Nas grandes interrogações passo o tempo final do dia, estantes arrumadas, um ar de ocasionais disfarces, o sangue preso às veias por tão pouco. Moinho de papel e pequenas figuras humanas a lápis de cor povoam esta sala, a sua casa, há uma inesperada ternura nos recortes e nas histórias contadas a uma mesa para o riso, para perguntas obscuras. Só sei que olho para os teus olhos a querer saber se ficamos, se partimos para onde não houver vento. Helder Moura Pereira