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A mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena

O corpo não espera

O corpo não espera. Não. Por nós ou pelo amor . Este pousar de mãos, tão reticente e que interroga a sós a tépida secura acetinada, a que palpita por adivinhada em solitários movimentos vãos; este pousar em que não estamos nós, mas uma sede, uma memória, tudo o que sabemos de tocar desnudo o corpo que não espera; este pousar que não conhece, nada vê, nem nada ousa temer no seu temor agudo... Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou. Jorge de Sena

Tentações do Apocalipse

Não é de poesia que precisa o mundo. Aliás, nunca precisou. Foi sempre uma excrescência escandalosa que se lhe dissesse como é infame a vida que não vivamos para outrem nele. E nunca, só de ser, disse a poesia uma outra coisa, ainda quando finge que de sobreviver se faz a vida. O mundo precisa de morte. Não da morte com que assassina diariamente quantos teimam em dizer-lhe da grandeza de estar vivo. Nem da morte que o mata pouco a pouco, e de que todos se livram no enterro dos outros. Mas sim da morte que o mate como um percevejo, uma pulga, um piolho, uma barata, um rato. Ou que a bomba venha para estas culpas, se foi para isso que fizemos filhos. Há que fazer voltar à massa primitiva esta imundície. E que, na torpitude de existir-se, ao menos possa haver as alegrias ingénuas de todo o recomeço. Que os sóis desabem. Que as estrelas morram. Que tudo recomece desde quando a luz não fora ainda separada às trevas do espaço sem matéria. Nem havia um espírito flanando ocioso sobre as águas ...

Quanto de ti, Amor...

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço em que de penetrar-te me senti perdido no ter-te para sempre - Quanto de ter-te me possui em tudo o que eu deseje ou veja não pensando em ti no abraço a que me entrego - Quanto de entrega é como um rosto aberto, sem olhos e sem boca, só expressão dorida de quem é como a morte - Quanto de morte recebi de ti, na pura perda de possuir-te em vão de amor que nos traiu - Quanta traição existe em possuir-se a gente sem conhecer que o corpo não conhece mais que o sentir-se noutro - Quanto sentir-te e me sentires não foi senão o encontro eterno que nenhuma imagem jamais separará - Quanto de separados viveremos noutros esse momento que nos mata para quem não nos seja e só - Quanto de solidão é este estar-se em tudo como na auséncia indestrutível que nos faz ser um no outro - Quanto de ser-se ou se não ser o outro é para sempre a única certeza que nos confina em vida - Quanto de vida consumimos pura no horror e na miséria de, possuindo, sermos a terra que ...

Nas vastas águas...

Nas vastas águas que as remadas medem. tranquila a noite está adormecida. Deslisa o barco, sem que se conheça que o espaço ou tempo existe noutra vida, em que os barcos naufragam, e nas praias há cascos arruinados que apodrecem, a desfazer-se ao sol, ao vento, à chuva, e cujos nomes se não vêem já. Ao que singrando vai, a noite esconde o nome. Jorge de Sena

Ode à incompreensão

De todas estas palavras não ficará, bem sei, um eco para depois da minha morte que as disse vagarosamente pela minha boca. Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri, ou nem sonhei ou nem pensei ou apenas sofri de não ter sofrido tanto como aterradamente esperara - nenhum eco haverá de outras canções não ditas, guardadas nos corações alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta. Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se, não encontrou eco. Por tudo o que, para ecoar, ficou silencioso, imóvel - - isso me dói como se ausência a música não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso, eminente, destinado, isso me dói dolorosamente, amargamente, na distância do saber tão claro, da visão tão lúcida, que para longe afasta o compassado ardor das vibrações do sangue pelos corpos próximos. Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição, da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos a imensa altura para que me arrebatas - meu palpitar de imagem à beira da alegria, meu reflexo nas águas tra...