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A mostrar mensagens com a etiqueta Luís Miguel Nava

Retrato

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo. Há quem, tendo-a metida num cofre até às mais fundas raízes, simule não ter pele, quando de facto ela não está senão um pouco atrasada em relação ao coração. Com ele porém não era assim. A pele ia imitando o céu como podia. Pequena, solitária, era uma pele metida consigo mesma e que servia de poço, onde além de água ele procurara protecção. Luís Miguel Nava

Não muita vez

Não muita vez nos vemos, mas, se poucos amigos há para falar dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos é ele o que melhor vai com a minha fome. Os dedos com que me tocou persistem sob a pele, onde a memória os move. Tacteiam, impolutos. Tantas vezes o suor os traz consigo da memória, que não tenho na pele poro através do qual eles não procurem sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória. Luís Miguel Nava

Onde à nudez

Onde à nudez cabe o papel habitualmente atribuído a uma janela. Quando afasto as cores para no lugar delas não deixar senão a luz ou me debruço ao peitoril sobre os meus próprios intestinos, a ficção fica por conta dos relâmpagos. É como se habitasse uma cidade que tivesse um espelho por subúrbios e o mar viesse estilhaçar-se ao fundo da memória, onde se encontra o coração. Abro na página um buraco onde alicerço a casa, as letras vêm às janelas. Luís Miguel Nava

A Saída

Havia no seu corpo uma saída. Podia através dela ir até onde quisesse, de momento que a porta não ficasse a bater com um ruído que a maior parte das pessoas confundia com o bater do coração. Não consta que o sangue o perseguisse senão muito raramente e mesmo assim não para além da beira-mar. Trazia há algum tempo na memória um espelho onde quem quer que se abeirasse dele podia contemplar-se. Pelo espelho era possível ser os poços através dos quais a pele desaparece, as ondas momentaneamente imóveis, as areias a assaltar-lhe o coração. Luís Miguel Nava

Brevíssimo crepúsculo

Procuro o que não deixa de por meias palavras fazer ver as ondas ascendendo do fundo dos baús. A água a contas com as trevas. Fascinam-me essas ondas, bem como uma pedra às mãos de quem procura abrir nela um sorriso, o céu que neste poema sei subentendido e apenas aos olhos dum rapaz a paixão trouxe num brevíssimo crepúsculo antes de ganhar velocidade e, nos meus ombros, as mãos desse rapaz quase de rapariga prontas a voar. Sinto a romper na boca os dentes como a ventania. Luís Miguel Nava