Avançar para o conteúdo principal

Acto de união | I

Esta noite, um primeiro movimento, uma pulsão,
como se a chuva no pântano jorrasse uma cabeça:
um rebentar do lodo ou um rasgão
que abre a cama dos fetos e a atravessa.
O teu dorso é uma linha firme da costa a nascente
e além das graduais colinas são lançados
braços e pernas. Acaricio a entumescente
província onde cresceu o nosso passado.
Sou o alto reino sobre o teu ombro quedo
e em ti nada o adula ou o ignora.
Conquistar é mentira. Envelheço e concedo
teu litoral semi-independente e agora
dentro dos seus limites meu legado
fica inexoravelmente culminado.



Seamus Heaney
traduzido por Vasco Graça Moura

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A essência dos dias.2

O livro aberto pousado nas suas mãos. Na macieza dos lábios as palavras mastigadas em silêncio e na dobra das pálpebras pequenos fragmentos de texto que não couberam naquelas páginas. A serena curva temporal do rosto acumula todos os pequenos assombros emocionais que cada parágrafo percorrido lhe desperta. O belíssimo rosto do ser amado a ler ilumina-se entretanto por um raio de sol que abre caminho por entre nuvens, braços, ombros e sacos. Olho a sua face iluminada. Iluminada pelo singelo e extraordinário raio de sol que ali escolheu terminar a sua viagem cósmica. Ali, no seu rosto, entre tantos outros na carruagem do comboio numa manhã de fevereiro. Ninguém atenta na singularidade deste instante. A luz que há minutos partiu de uma estrela viaja agora connosco no comboio. Ilumina-te. E na dobra do tempo, como antes na dobra das tuas pálpebras, somos atingidos pela poeira desta centelha. Somos perfeitos. Estamos numa única dimensão. Estamos em todo o lado. [ alma ]

XTERIORS XVII

  Desirée Dolron

Ler contra o silêncio | 16

Studying Iman Maleki