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A mostrar mensagens com a etiqueta Ana Mafalda Leite

SER DE SOMBRA

Fui até ao Insónia ...e trouxe comigo este poema! Chovia. No bosque os pequenos ruídos de folhas de água deslizando verde. Chovia. E eis que a límpida brancura se raiou de fumo brilhando uma ágata. Surgiam do chão os ramos os troncos os braços desenterrados bocas de luz candeias chuva de oiro o canto desfibrado húmus húmido incendiado. Um ser de sombra e de água chovia. Os anéis dos cabelos acesos intactos adejando a hera as mãos negras e as anémonas um lago. A cinza era o que restava verde chuva alada passagem rubra. Ana Mafalda Leite

Papoilas

estou opiada de ti e percorres-me os nervos todos com papoilas borboletas vermelhas o meu corpo entrança-se de sonhos e sente-se caminhando por dentro aspiro-te como se me faltasse o ar e os perfumes dançam-me qualquer coisa como uma droga bem forte corpo e alma rezam pequenas orações gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça sonhos coisa estranha opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e muito sol com luas por dentro para poder mastigar estes sonhos reais como mandrágoras Ana Mafalda Leite

O vermelho das acácias na paisagem

cai ao chão a mais íntima aurora há-de vestir-me de cor rubra a matéria que tinge o céu e me deslumbra este assalto da aurora será meu enxoval meu dote de menina agora que sei o mistério e continuo donzela tu que pões o vermelho das acácias na paisagem estranho amor te foi cobrindo amarga toranja doce de papaia regressa de cada vez mais jovem a semente chama arde em lábios audaciosos neste acontecer saboroso eles são afeitos à incandescente terra a crescer um dom de mansidão em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto um rosário de contas pretas me escorre dos dedos devagarinho para o chão Ana Mafalda Leite