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A mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice

Princípios

Podíamos saber um pouco mais da morte. Mas não seria isso que nos faria ter vontade de morrer mais depressa. Podíamos saber um pouco mais da vida. Talvez não precisássemos de viver tanto, quando só o que é preciso é saber que temos de viver. Podíamos saber um pouco mais do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada sabemos do amor. Nuno Júdice

Vénus ao espelho

se a vénus ao espelho fosse uma oliveira a arder por dentro com sua chama de óleo doce e tudo em brasa desde o centro, se o seu espelho acaso fosse embaciado pelo alento que algum cúpido em voo trouxe entre desejo e atrevimento, se o ar no quarto depois fosse feito luz táctil do aposento e se entranhasse a tomar posse da nudez rósea no cinzento, e se velásquez então fosse pintar-lhe o ensimesmamento eu te diria: misturou-se ao próprio instinto o pensamento. Vasco Graça Moura Diego Velázquez Vejo as duas vidas que tu olhas; e das duas não sei qual escolher. Tiro-te do espelho; e à minha frente és o reflexo que imagino, num pedaço de realidade. Mas se tento tocar-te, é o vidro que me impede de passar para onde estás, e de onde me chamas, num eco de desejo. Pudesse eu partir o espelho, e ver em cada estilhaço os fragmentos de vida em que nos encontrámos! Ou colar ao vidro a minha boca, e encontrar húmidos os teus lábios! Porém, nada desvia a tua atenção; e no rosto que olhas vês o rosto q...

A Vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua mais que perfeita imprecisão, os dias que contam quando não se espera, o atraso na preocupação dos teus olhos, e as nuvens que caíram mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações a abrir-se para dentro e para fora dos sentidos que nada têm a ver com círculos, quadrados, rectângulos, nas linhas rectas e paralelas que se cruzam com as linhas da mão; a vida que traz consigo as emoções e os acasos, a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram e dos encontros que sempre se soube que se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, sob a luz indecisa que apenas mostra as paredes nuas, de manchas húmidas no gesso da memória; a vida feita dos seus corpos obscuros e das suas palavras próximas. Nuno Júdice