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A mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade

Contigo

Acordo na manhã de oiro entre o teu rosto e o mar. As mãos afagam a luz, prolongam o dia breve. Entre o teu rosto e o mar ninguém deseja ser neve. Ninguém deseja o veneno da noite despovoada. Acorda-me a tua voz, nupcial, branca, delgada. Eugénio de Andrade

Impetuoso, o teu corpo

Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. Eugénio de Andrade

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que to...

Ecos de Verão

Quando todo o brilho da cidade me escorre pelas mãos, que já não são mais que fugidios ecos de verão, a música dos dias sem idade subitamente como fonte ou ave rompe dentro de mim - e nem eu sei, neste rumor de tudo quanto amei, se a luz madrugou ou chegou tarde. Eugénio de Andrade

Tu és a esperança, a madrugada

Tu és a esperança, a madrugada. Nasceste nas tardes de setembro, quando a luz é perfeita e mais dourada, e há uma fonte crescendo no silêncio da boca mais sombria e mais fechada. Para ti criei palavras sem sentido, inventei brumas, lagos densos, e deixei no ar braços suspensos ao encontro da luz que anda contigo. Tu és a esperança onde deponho meus versos que não podem ser mais nada. Esperança minha, onde meus olhos bebem, fundo, como quem bebe a madrugada. Eugénio de Andrade

O desejo

O desejo, o aéreo e luminoso e magoado desejo latia ainda; não sei bem em que lugar do corpo em declínio mas latia; bastava abrir os olhos para ouvir o nasalado ardor da sua voz: era a manhã trepando às dunas, era o céu de cal onde o sul começa, era por fim o mar à porta - o mar, o mar, pois só o mar cantava assim. Eugénio de Andrade

Encostas a face...

Encostas a face à melancolia e nem sequer ouves o rouxinol. Ou é a cotovia? Suportas mal o ar, dividido entre a fidelidade que deves à terra de tua mãe e ao quase branco azul onde a ave se perde. A música, chamemos-lhe assim, foi sempre a tua ferida, mas também foi sobre as dunas a exaltação. Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia. É dentro de ti que toda a música é ave. Eugénio de Andrade