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A mostrar mensagens com a etiqueta Francisco José Viegas

Borboletas

Noites sem sexo são perfeitas, também: janelas entreabertas, sombras que passam na rua através das horas, relâmpagos que não chegam a iluminar as paredes do quarto. Românticos que se encontram depois de viver vidas paralelas, cansados – mas enlaçados antes que chegue a hora de partir, sem saberem se amanhã há outro sono igual, ou uma escolha para fazer. Os dois sabem que são doidos, estendem os dedos na escuridão entre as luas. Os dois sabem que mais adiante podem arder de repente no meio do Verão, consumidos pelos segredos e pela indiferença. Noites sem sexo são perfeitas, também; e raras, e condenadas e incompletas. Borboletas no estômago, batendo asas contra todas as paredes do corpo – não deixando que ele adormeça, inquieto e insatisfeito, voltado para dentro e para o passado. Românticos que se encontram quando nenhum deles esperava outra oportunidade, outro caminho. Nunca estamos preparados, diz um. Nunca estamos, repete o outro, quando a primeira borboleta sossega depois de um be...

Quando, no nome do mar

Quando digo o nome do mar não é do mar que digo o nome, mas de tudo o que antes e para lá do mar ficou em sobressalto nos perigos da sua travessia. Aprendi isso em lugares raros, como o último silêncio, a última gota de água ou de mel. Francisco José Viegas

Pequena litania para um amor familiar

sê devastador e violento como a tempestade ao abrir as gavetas, ao depor sobre a mesa nenhuma razão que outros conheçam. alimenta-te de mim e de ti, guarda as fotografias em paredes brancas onde nenhuma ave se demore, abre-me as feridas, as mais recentes e as antigas. sê brando e lento como as manhãs de dezembro ao desfazerem-se em neve, esquece os recados, os pequenos delitos escondidos em segredo. os telhados abrigam-nos da maledicência, do azar, daquilo que o tempo gasta em passar sobre nós. leva-me assim, como um acidente entre os dedos. sê luminoso e intenso, ó meu amor, retrato escondido, colecciona os declives, ensina-me essa geografia, sê inocente e puro, mesmo que a noite interrompa a vida e a nossa pele estremeça. deixa que bebamos apenas se o prazer magoar onde nasce a sede, fala-me de mim e de ti, se nos sentarmos nas dunas. Francisco José Viegas