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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Drummond de Andrade

Fraga e sombra

A sombra azul da tarde nos confrange. Baixa, severa, a luz crepuscular. Um sino toca, e não saber quem tange é como se este som nascesse do ar. Música breve, noite longa. O alfanje que sono e sonho ceifa devagar mal se desenha, fino, ante a falange das nuvens esquecidas de passar. Os dois apenas, entre céu e terra, sentimos o espetáculo do mundo, feito de mar ausente e abstrata serra. E calcamos em nós, sob o profundo instinto de existir, outra mais pura vontade de anular a criatura. Carlos Drummond de Andrade

A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos de mármore e losango, onde as colunas se deploram silentes, sem que as pombas venham trazer um pouco do seu ruflo; traça das finas torres consumidas no vazio mais branco e na insolvência de arquiteturas não arquitetadas, porque a plástica é vã, se não comove, ó criador de mitos que sufocam, desperdiçando a terra, e já recuam para a noite, e no charco se constelam, por teus condutos flui um sangue vago, e nas tuas pupilas, sob o tédio, é a vida um suspiro sem paixão. Carlos Drummond de Andrade

Remissão

Tua memória, pasto de poesia, tua poesia, pasto dos vulgares, vão se engastando numa coisa fria a que tu chamas: vida, e seus pesares. Mas, pesares de quê? perguntaria, se esse travo de angústia nos cantares, se o que dorme na base da elegia vai correndo e secando pelos ares, e nada resta, mesmo, do que escreves e te forçou ao exílio das palavras, senão contentamento de escrever, enquanto o tempo, e suas formas breves ou longas, que sutil interpretavas, se evapora no fundo de teu ser? Carlos Drummond de Andrade

Porque te amo

Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor. Carlos Drummond de Andrade

Poema para Hilda Hilst

Abro a folha da manhã Por entre espécies grã-finas Emerge de musselinas Hilda, estrela Aldebarã. Tanto vestido enfeitado Cobre e recobre de vez Sua preclara nudez Me sinto mui perturbado. Hilda girando boates Hilda fazendo chacrinha Hilda dos outros, não minha Coração que tanto bates. Mas chega o Natal e chama a ordem Hilda. Não vez que nesses teus giroflês Esqueces quem tanto te ama? Então Hilda, que é sab(ilda) Manda sua arma secreta: um beijo em morse ao poeta. Mas não me tapeias, Hilda. Esclareçamos o assunto. Nada de beijo postal No Distrito Federal o beijo é na boca e junto. Carlos Drummond de Andrade

Visão de Clarice Lispector

Clarice, veio de um mistério, partiu para outro. Ficamos sem saber a essência do mistério. Ou o mistério não era essencial, era Clarice viajando nele. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo, onde a palavra parece encontrar sua razão de ser, e retratar o homem. O que Clarice disse, o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. São coisas, são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo, ela dona de tudo. Clarice não foi um lugar-comum, carteira de identidade, retrato. De Chirico a pintou? Pois sim. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou, não se percebe mais. De Clarice guardamos gestos. Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia, cuidados, providências. Clarice não saiu, mesmo sorrindo. Dentro dela o que havia de salões, escadarias, tetos fosf...