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A mostrar mensagens com a etiqueta Christina Georgina Rossetti

Inverno: o meu segredo

Revelar meu segredo? Não, por certo; Talvez quem sabe, um dia em breve. Mas hoje não; tombou geada e neve. Se a curiosidade te hei desperto E sem pudor o queres ouvir, pois bem: O segredo é meu, não conto a ninguém. Talvez nem haja nada que contar: Imagina afinal que não há segredo, Era só a brincar. Hoje está frio, é um dia azedo Em que faz falta uma roupa abafada, Um xaile e mantas que nos aqueçam; Não posso abrir a todos quantos peçam, Deixar o vento entrar-me de rajada, Rodear-me, cercar-me, Aturdir-me, assustar-me, Enregelar-me sob este disfarce Que me aconchega; Pois quem quer desnudar-se Ao vento frio que o há-de fustigar? Não me fustigarias? Obrigada, Mas deixa essa verdade inda velada. É bela a Primavera; todavia Não confio em Março com seus tremores, Nem em Abril co´a breve chuva fria, Muito menos em Maio cujas flores Murcham co´a geada da noite sombria. Talvez num dia lânguido de Estio, Quando o sol faz as árvores dormitar E se cobre de ouro a loura espiga, Com fresca brisa ...

Um aniversário

Meu coração é um pássaro cantante Cujo ninho é um rebento orvalhado; Meu coração é uma macieira Vergando o tronco de frutos pesado; Meu coração é um búzio irisado Vogando na corrente com langor; Meu coração mais que tudo se alegra Porque a meus braços chegou meu amor. Dai-me um dossel tingido de cor roxa; De seda debruada de mil folhos; Bordai nele romãs, pombos alados, Pavões com caudas de mais de cem olhos; Ornai-o de uvas, de rubis e prata, Folhas douradas, pomares em flor; Porque hoje é dia que nasce m´nha vida, Hoje a meus braços chegou meu amor. Christina Rossetti tradução de Margarida Vale de Gato

Recorda

Recorda-me quando eu te abandonar Quando me for sob a terra silente; Quando achares a minha mão ausente, E eu, querendo partir, já não ficar. Quando já não me puderes contar Planos dum futuro que nos não cabe, Recorda-me somente; tu bem sabes Que então será tarde para rezar. Mas se me esqueceres entrementes E depois recordares, não lamentes: Pois se a corrupção te assombrar os dias Com ideias que eu tinha na cabeça, Melhor será que me esqueças e sorrias Do que minha memória te entristeça. Tradução de Margarida Vale de Gato Recorda-te de mim quando eu embora For para o chão silente e desolado; Quando eu não te tiver mais ao meu lado E sombra vã chorar por quem me chora. Quando mais não puderes, hora a hora, Falar-me no futuro que hás sonhado, Ah de mim te recorda e do passado, Delícia do presente por agora. No entanto, se algum dia me olvidares E depois te lembrares novamente, Não chores: que se em meio aos meus pesares Um resto houver do afecto que em mim viste, - Melhor é me esquecere...

Eco

Vem até mim no silêncio da noite, Vem no silêncio sussurrante de um sonho, Vem com faces cheias e doces e olhos brilhantes Como a luz do sol num regato, Vem de volta em lágrimas Oh! memória, esperança, amor de anos findos. Oh! sonho doce, tão doce, demasiado amargo e doce, Cujo acordar deveria ter lugar no Paraíso, Onde as almas transbordantes de amor vivem e se encontram Onde olhos sedentos anelantes Observam a lenta porta Que abrindo-se, deixando entrar, não mais deixa sair. Mas vem até mim em sonhos, para que possa de novo viver A minha vida verdadeira, embora fria na morte Vem de volta para mim em sonhos, para que possa dar Pulsar por pulsar, alento por alento: Fala baixinho, inclina-te mais Como há tanto tempo, meu amor, há quanto tempo. Christina Georgina Rossetti tradução de Margarida Vale de Gato

Num qualquer sítio

Num qualquer sítio decerto deve haver A face nunca vista, a voz nunca ouvida O coração que ainda nunca, nunca ainda, pobre de mim! Respondeu à minha chamada. Num qualquer sítio, talvez perto ou longe, Para além da terra e do mar, bem longe da vista Para além da lua errante, para lá da estrela Que a segue noite após noite. Num qualquer sítio, talvez longe ou perto, Com apenas um muro, uma sebe a escondê-lo, Ou apenas as últimas folhas do ano a morrer Caídas sobre um relvado enverdecido. Christina Georgina Rossetti tradução de Helena Barbas